sábado, 28 de abril de 2018

Quarto Crescente - Quarto Crescente (1981):


Por Davi Pascale
Texto publicado originalmente no site Consultoria do Rock
Um dos grandes baratos de colecionar discos, pesquisar sobre os artistas que acompanhamos, é justamente ter a chance de descobrir trabalhos muito bacanas, mas que nunca tiveram a atenção que mereciam. E um dos grandes baratos de publicar um texto (seja em uma revista, em um jornal ou em um site especializado como esse) é justamente poder compartilhar essas informações com a nova geração.
O Quarto Crescente nunca foi uma banda de sucesso, mas contou com músicos de sucesso em sua formação. Babalu, nome artístico de Antonio Medeiros Junior, também conhecido como Tony Babalu, chegou a gravar diversos álbuns com o cultuadíssimo Made in Brazil. Percy Weiss foi o homem de frente em bandas como Chave do Sol, Patrulha do Espaço e o próprio Made. Inclusive, era o vocalista que eu mais gostava entre todos que fizeram parte da banda. Infelizmente, nunca tive a chance de assisti-lo ao vivo. Uma pena…
O álbum, contudo, nasceu do desejo do baterista Horácio Malanconi Neto, ou simplesmente Horacio, de gravar um disco. Inicialmente, os garotos que começaram como uma banda de bar, utilizavam o nome de Cadela, mas quando decidiram que iriam levar adiante a decisão de gravar um LP, optaram por colocar um nome melhor. Os meninos lembraram que Percy, no início dos anos 70, havia cantando em um grupo que tinha o nome de Quarto Crescente e perguntaram ao cantor se poderiam utilizar o nome, já que a banda não existia mais. O cantor autorizou e a partir de então nasce o novo Quarto Crescente. Mais uma vez, com Percy.
Contracapa do LP
O LP, como acontece com grande parte da cena independente desse país, foi gravado em tempo recorde. Uma semana para gravar, mixar e masterizar o álbum. A produção do disco e a direção dos arranjos são dos próprios músicos. Uma historia comum em nosso país. Conheço banda que gravou todo um álbum em uma única tarde, mas aos poucos vamos revelando essas histórias por aqui…
Percy já era um nome muito conhecido entre os rockers do país. Um ano antes, havia gravado o álbum preto da Patrulha do Espaço. Já havia ocorrido também sua primeira passagem no conjunto dos irmãos Vecchione, onde havia realizado os registros de Jack, o Estripador e Massacre (álbum que foi abandonado por conta da perseguição da censura e só chegou às lojas em 2005 em CD e 2015 em LP). Portanto, já tinha bastante experiência. O trabalho vocal que realiza aqui é bem seguro e extremamente satisfatório.
O Lado A começa calmo com “Bicicleta”, uma boa canção envolvida de uma bela levada de blues. “Serra Pelada” vem na sequência apostando em uma pegada mais country rock. “Ave Noturna” é a grande faixa do primeiro lado. Bem rock n roll. Lembra bastante o som realizado pela turma da Pompeia.  Cabe aqui uma explicação. Existe uma polêmica com essa faixa por conta de uma semelhança com “Me Faça Sonhar”, presente no álbum Minha Vida É o Rock n Roll. Muitos questionam quem plagiou quem. Na verdade, ninguém plagiou ninguém. Pouco antes da separação, Percy e Oswaldo haviam começado a trabalhar uma música juntos que ficou inacabada. E os dois tiveram a ideia de terminar a faixa inacabada para o projeto que estavam desenvolvendo. Daí, a semelhança e a aparição de algumas frases em comum. O primeiro lado encerra-se com um divertido medley intitulado Jovem Guarda, onde eles lembram um pouquinho do popular movimento musical que dominou as paradas de sucesso na década de 60.
Percy com o Made In Brazil
Antes de comentarmos o lado B, cabe mais uma explicação. Além de Babalu, Horácio e Percy, fazia parte da trupe o baixista Tigueis. Muita gente confunde achando que se trata de Luiz Domingues, também conhecido como Luiz Tigueis, dono das 4 cordas da Chave do Sol. Na verdade, trata-se de outro rapaz. Esse aqui, atende pelo nome de Antonio Carlos Lopes e é conhecido por seu trabalho de luthier e seu registro ao lado do grupo Cão Fila. Sim, existem 2 baixistas chamados Tigueis no Brasil.
O lado B começa com “Mercado Modelo”, outro rock n roll bem pra cima. Na minha opinião, um dos grandes momentos do disco. Assim como a bela balada “Boa Garota” que vem logo na sequencia. Segundo indica, essa era a faixa favorita do falecido cantor. “Regue Fajuto” conta com uma boa levada de baixo. “Fique Frio” resgata bem a sonoridade do Made (quem gosta da banda, tem de tudo para curtir esse som), mas é em “Triste Cidade” que o LP volta a pegar fogo. Eles terminaram o disco do mesmo jeito que começaram. Ou seja, mais uma canção calcada no velho blues.
A sonoridade do álbum é tão crua quanto a sonoridade da banda. Nada de mega-produções, efeitos, nada do tipo. Apenas 4 garotos fazendo um som honesto com bastante garra. Há a participação de alguns amigos músicos fazendo percussão, gaita, flauta, mas nada além disso. Infelizmente, esse disco não é muito fácil de se conseguir, mas quando encontrar um por aí, se você for um amante do rock setentista produzido no Brasil, não deixe de pegar. (Embora já tenha sido lançado na década seguinte, a pegada é exatamente esta). Eu consegui meu exemplar…
Lado A:
  • Bicicleta
  • Serra Pelada
  • Ave Noturna (Rock n Roll)
  • Jovem Guarda: Gênio / O Pica Pau / Parei Na Contra Mão / Rua Augusta / O Bom / Splish Splash ) / Você Me Acende
Lado B:
  • Mercado Modelo
  • Boa Garota
  • Regue Fajuto
  • Fique Frio
  • Triste Cidade

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Motorhead – What´s Words Worth: Recorded Live 1978 (2018):




Por Davi Pascale

Apresentação histórica do Motorhead chega ao Brasil pelo selo Hellion Records. Disco apresenta banda no início de carreira, pré-fama, com um som mais cadenciado do que estamos acostumados, mas honesto como sempre.

Quem é fã de Motorhead já perdeu as contas de quantas vezes ouviu a frase “We are Motorhead and we play rock n roll”. Essa frase nunca fez tanto sentido quanto no material em que ouvimos aqui. Esse registro em Londres, no inicinho de sua trajetória, mostra exatamente isso. Uma banda com uma pegada mais rock n roll, menos veloz.

Essa não é a primeira vez que esse registro chega às lojas. Esse álbum foi lançado pela primeira vez em 1983. Aquela velha história, a banda faz sucesso e os executivos começam a inventar trocentas modas para ganhar dinheiro em cima do artista. Nem sempre, eles erram, é verdade. Esse álbum mesmo é um acerto.

Curiosamente, o grupo não fez essa apresentação com o nome de Motorhead. No dia, por alguma razão qualquer, utilizaram o nome de Iron Fist  And The Hodes From Hell. O show ocorreu em 18 de Fevereiro de 1978 em Roundhouse, em Londres, e foi organizado pelo cantor Wilko Johnson. Além dos dois, também rolou um show de The Count Bishops no dia. Tratava-se de um evento beneficente criado com a intenção de arrecadar dinheiro para ajudar a preservar os manuscritos do poeta William Woldsworth.



Interessante notar que o som marcante do baixo de Lemmy Kilmister já estava ali. Aquele som repleto de distorção já estava marcando presença firme e forte. “Fast” Eddie Clark já debulhava na guitarra. Fazia uns solos bem legais. Phil “Animal” Taylor já segurava a bronca bem, mas como uma audição atenta é possível pegar umas atravessadas de tempo. Um exemplo seria no início de “Keep Us On The Road”, mas nada que tirasse o brilho da apresentação. Lemmy já trazia seu estilo característico de cantar. Em “The Watcher” a voz não estava tão legal. A partir de “Iron Horse/Born To Lose” já normaliza. Devia estar nervoso…

A qualidade de gravação é muito boa. Nem parece que esse material já tem 40 anos. Entretanto, vale ressaltar que esse CD não é recomendado para os novatos. Não há nenhum de seus clássicos. Há vários covers. Alguns registrados em On Parole, caso de “Leaving Here” (Eddie Holland), outros não, caso de “In Your Witch Doctor” (John Mayall). E quase sempre de canções não tão populares.

A versão de “Train Kept a Rollin” (Tiny Bradshaw) ficou bem bacana, bem enérgica, mas sou obrigado a confessar que ninguém conseguiu superar o Aerosmith nesse som.  O Motorhead sempre foi uma banda extremamente honesta em todos os sentidos. E a gravação segue esse princípio. O som é bem definido e, quase certeza que, sem overdubs. O show como aconteceu na lata.

Esse ano completa-se 4 décadas dessa apresentação. Portanto, sua reedição é realmente acertada. Se você é fã do trio e ainda não possui esse álbum, vale muito a pena pegar esse disco. Esquece e imagem da capa. Realmente, a capa não é das melhores. E alguns podem imaginar ser um bootleg. Não é! Pegue e divirta-se.

Nota: 8,0 / 10,0
Faixas:

      01)   The Watcher
      02)   Iron Horse / Born To Lose
      03)   On Parole
      04)   White Line Fever
      05)   Keep Us On The Road
      06)   Leaving Here
      07)   In Your Witch Doctor  
      08)   The Train Kept a Rollin´
      09)   City Kids

sábado, 31 de março de 2018

The Doors – Live At The Isle Of Wight Festival 1970 (2017):




Por Davi Pascale

Apresentação histórica do The Doors chega ao Brasil. Show apresenta Jim Morrison concentrado, sem muita empolgação, enquanto a banda demonstrava enorme entrosamento. Esse foi um dos últimos shows dos rapazes.

Os fãs de The Doors podem comemorar. Durante todos esses anos, poucos vídeos foram lançados e o único show na integra até então era o histórico – e emocionante – Hollywood Bowl. Depois, foram lançados vídeos bem bacanas mesclando performances de TV, clipes, entrevistas, mas os fãs continuavam na expectativa de assistir mais algum show dos rapazes da fase Morrison. Bem, agora podem.

É impossível não notar o contraste. A apresentação no Hollywood Bowl demonstrava lizard king magro, cheio de atitude, como quem acreditasse que seria capaz de mudar o mundo. A apresentação que chega agora traz o músico gordo, barbudo, totalmente concentrado, mas um tanto desanimado. Nenhuma provocação com o público, nenhum movimento incomum. Seguiu o script à risca. E, em se tratando de Morrison, isso era raro.

A razão é que o cantor estava para ser julgado e corria sério risco de prisão. A acusação era de que o rapaz teria exposto seu pênis durante um show do conjunto. Algo que nunca foi comprovado e sempre foi negado pelo cantor e por seus companheiros de banda. No documentário presente no extra (This is The End), uma imagem de arquivo do já falecido tecladista Ray Manzarek traz o musico explicando que pediu para que o roadie dele invadisse o palco e agarrasse Jim para que não cometesse tal loucura.



A qualidade de gravação é boa para os padrões em que foram gravados. Essas imagens são de 1970 e os músicos estavam se apresentando às 2 horas da manhã com uma baixa iluminação de palco. Mesmo assim, vale o achado por seu valor histórico. Além de ser o segundo vídeo ao vivo dos rapazes (com a formação clássica), esse é um dos últimos shows do The Doors com Jim. Após essa apresentação rolaram apenas mais 2 apresentações.

Curiosamente, o repertório não traz muitas músicas de Morrison Hotel e nem de The Soft Parade (esse, acho que não teve nenhuma). A base do set foi o debut de 1967 (sim, eles mudaram tanto assim em pouco mais de 3 anos...)

Não colocaria essa apresentação como uma de suas melhores. Tenho vários CD´s ao vivo dos rapazes (alguns, bootlegs, inclusive) e conheço performances muito mais inspiradas do que essa. O clima de tensão no palco era facilmente percebido. Entretanto, como todos eram grandes músicos, conseguiram deixar o show interessante. Sem contar que é sempre mágico ver Jim em ação. Algo, aliás, deve ser comentado. Apesar de estar meio decepcionado com tudo o que estava acontecendo, Morrison não avacalhou o show. Pelo contrário, cantou incrivelmente bem no dia.

Esse também foi o último show que os músicos filmaram. Portanto, por essas e por outras, diria que mesmo que seu líder não estivesse saltitante, esse é um filme obrigatório na coleção dos fãs da banda e dos amantes do rock clássico. Que venham mais lançamentos como esse por aí. Está cheio de show histórico perdido nos arquivos. Já passou da hora de resgatarem essas pérolas.

Nota: 10,0 / 10,0

Faixas:
     01)   Roadhouse Blues
     02)   Introduction
     03)   Back Door Man
     04)   Break On Through (To The Other Side)
     05)   When The Music´s Over
     06)   Ship Of Fools
     07)   Light My Fire
     08)   The End (Medley: Across The Sea / Away In India / Crossroads Blues / Wake Up)
Bonus Feature: “This Is The End” featurette

sábado, 24 de março de 2018

Linkin Park – One More Light Live (2017):




Por Davi Pascale

Linkin Park solta novo trabalho ao vivo como forma de homenagear Chester Bennington. Novo disco comprova mudança de sonoridade, além de deixar nítida a diferença que o cantor fazia no grupo.

No inicio dos anos 2000, tivemos o que talvez tenha sido o ultimo suspiro do rock n roll invadindo o circuito mainstream. O sucesso de grupos como Linkin Park, Evanescence e Slipknot ajudaram a manter a garotada dentro do rock. Hybrid Theory e Meteora foram trabalhos marcantes para quem viveu aquele período. Esses trabalhos embalaram diversas canções nas FM´s e se tornaram trilha sonora dos adolescentes daquele período.

Depois de terem sido acusados de estarem se repetindo (após o sucesso de Meteora, os garotos lançaram disco ao vivo, disco de remixes e um disco ao lado do Jay-z, todos repetindo boa parte do repertório), os caras resolveram chutar o balde e mudar a direção de sua música. A partir daí, seu publico se dividiu. Há quem diga que tenham amadurecido enquanto compositores, há quem diga que perderam a graça.

Seu trabalho mais polêmico foi justamente o mais recente, One More Light, onde os músicos abraçaram de vez a sonoridade pop. Para quem curte a fase mais recente dos caras, o novo ao vivo irá cativá-los. Quem deixou de acompanhar os meninos e decidiu comprar o CD embalado pelo baque da morte de Bennington, irá estranhar.


Digo isso por 2 razões. A primeira é que o Linkin Park decidiu explorar seu mais novo disco no repertório. Embora não o considere um destaque em sua discografia, acho a jogada interessante. Gosto quando o artista resolve explorar o disco que está lançando. É um modo de nos fazer perceber a força de algumas composições que não notamos em uma primeira audição, além de ajudar a modificar o show de uma turnê para a outra. Esse é outro motivo que me agrada. A banda já lançou outros trabalhos ao vivo. É uma forma de sair do mais do mesmo. A outra razão que disse que irão estranhar é porque o som das guitarras ficaram mais magras e essa logica se segue mesmo na execução das músicas antigas.

Embora ainda prefira o grupo fazendo um trabalho mais pesado, não dá para massacrar o disco. Os caras sempre foram bons de palco e a logica se mantém. O repertório está muito bem executado. E as faixas escolhidas servem para comprovar, mais uma vez, que Chester era um diferencial dentro do grupo. Em relação à interpretação vocal, praticamente leva o show nas costas. Tinha um bom alcance e era bem versátil. Honestamente, não consigo imaginar a banda sobrevivendo sem ele.

No setlist, além de 7 faixas de seu mais novo disco, temos alguns dos principais hits sendo relembrados. “In The End”, “Numb” e “Bleed It Out” estão entre eles, mas para quem quer matar a saudade de Chester Bennington mesmo, os números mais cativantes acabam sendo “Crawling” (apenas com piano e voz) e a acústica “Sharp Edges”.

O disco não é o registro de uma única apresentação. Foram utilizados áudios de diferentes concertos. E também não se trata de um show na integra. Portanto, para quem está dizendo que faltou muito som (e faltou mesmo), lembre-se que provavelmente foram executadas, mas não entraram no disco. De todo modo, trata-se de uma bonita homenagem e merece ser conferida entre seus admiradores.

Nota: 7,5 / 10,0

Faixas:
      01)   Talking To Myself
      02)   Bur It Down
      03)   Battle Symphony
      04)   New Divide
      05)   Invisible
      06)   Nobody Can Save Me
      07)   On More Light
      08)   Crawling
      09)   Leave Out All The Rest
      10)   Good Goodbye feat Stormzy
      11)   What I´ve Done  
      12)   In The End
      13)   Sharp Edges
      14)   Numb
      15)   Heavy
      16)   Bleed It Out

quarta-feira, 14 de março de 2018

Paulo Miklos – A Gente Mora No Agora (2017):




Por Davi Pascale

Paulo Miklos lança seu terceiro álbum solo, o primeiro após sua saída dos Titãs. Novo trabalho traz o musico entrando de cabeça na tão comentada música popular brasileira. O disco tem sido bem recebido, mas não é voltado para todo tipo de fã.

Os Titãs fizeram parte da minha formação musical. Quando comecei a ouvir o conjunto, lá por 1988, 1989, eles eram um dos principais nomes do rock brasileiro. Iam contra tudo e todos. Faziam um som pesado, possuíam uma irreverência fora do comum nos palcos, letras incômodas. Iam contra o sistema. Se essa ainda é sua visão sobre os músicos, cuidado, muito cuidado ao ouvir o disco novo do Paulo Miklos.

Quem acompanha os músicos de perto, não se espanta mais. Já tem anos que eles deixaram claro que eles querem ser populares e já tem um tempo que os músicos deixaram sua admiração explícita pela MPB.

Esse é o melhor termo para definir A Gente Mora No Agora. É um trabalho de MPB. Para criar o repertório, Paulo contou com a ajuda de grandes nomes da cena. Desde os lendários Guilherme Arantes e Erasmo Carlos, passando pela linda e talentosa Céu, até seus ex-companheiros Nando Reis e Arnaldo Antunes. O que predomina, contudo, é a aproximação com a nova geração. Além da Céu, temos o dedo de nomes como Tim Bernardes, Silva, Emicida e até mesmo Mallu Magalhães.

Quando coloquei meu LP para tocar pela primeira vez (sim, comprei o vinilzão), procurei não ficar reparando em quem era o compositor de tal canção para não me deixar influenciar. Entre os parceiros escolhidos pelo artista, há alguns que gosto muito do trabalho que fazem e acompanho de perto e outros que nunca me agradaram. No primeiro lado, as que mais se destacaram foram “A Lei Desse Troço”, “Vigia” e “Vou Te Encontrar”. Curiosamente, são faixas que se ouvirmos isoladas, já temos uma noção do que se trata o disco. Um LP com bastante brasilidade e uma pegada romântica por trás. Curiosamente, duas delas escritas por artistas que não sou fã.



Apesar do grupo paulista ter nos brindado com diversos talentos, em termos de voz, o Paulo Miklos sempre foi quem mais me chamou a atenção. Voz rasgada, forte, afinado. Seu trabalho vocal é bem resolvido, não decepciona. Por ser um trabalho solo, já era esperado que não tivesse uma banda fixa. É exatamente isso o que ocorre aqui. Entre os nomes presentes, contudo, vale citar a participação do lendário Dadi Carvalho (A Cor do Som, Barão Vermelho), Pupillo (Nação Zumbi) e Apollo 9 (Planet Hemp, Bebel Gilberto).

Interessante notar que alguns músicos possuem uma marca tão forte que é difícil não imaginarmos de quem é a autoria, assim que ouvimos a canção. Isso é facilmente notável nas contribuições de Erasmo Carlos (País Elétrico) e Guilherme Arantes (Estou Pronto). É possível sacar que as musicas são deles somente pela divisão métrica. Aliás, a faixa do Guilherme Arantes é super bonita.

O lado B achei um pouco mais irregular do que o lado A, mesmo assim vale destacar a bonita balada “Princípio Ativo” e “Samba Bomba”, que apesar do nome, é a mais roqueira do álbum, com uma pegada quase tropicalista.

No geral, A Gente Mora no Agora é um disco bonito, bem resolvido, mas mais uma vez, se você está comprando por ser ‘o novo disco do ex-cantor dos Titãs’, cuidado. Há quem acuse Nando Reis e Rita Lee de terem se enveredado para a MPB (o que não considero nenhum demérito, aliás), para esses, já aviso que o mergulho de Paulo Miklos na musica popular brasileira foi mais profundo. Por sua conta e risco.

Nota: 7,0 / 10,0

Faixas:
Lado A:
      01)   A Lei Desse Troço
      02)   Vigia
      03)   Risco Azul
      04)   Vou Te Encontrar
      05)   Todo Grande Amor
      06)   País Elétrico
Lado B:
      01)   Estou Pronto
      02)   Não Posso Mais
      03)   Princípio Ativo
      04)   Afeto Manifesto
      05)   Samba Bomba
      06)   Deixa De Ser Alguém
      07)   Eu Vou

sábado, 3 de março de 2018

Ace Frehley – Anomaly Deluxe Edition (2017):

Por Davi Pascale
Publicado Originalmente no site Consultoria do Rock
O álbum que marcou o retorno do spaceman à ativa é relançado com faixas bônus. Ainda que não seja um trabalho considerado clássico, o disco foi bem recebido à época entre seus fiéis seguidores. Esse lançamento segura a ansiedade de seus admiradores até que seu novo trabalho de inéditas chegue às lojas em abril.
Nunca tive dúvidas. Meu guitarrista favorito do Kiss sempre foi o Ace. Sim, gosto muito de Bruce, Vinnie, Mark e Tommy, mas Ace soa mágico e o rapaz, ainda que incompreendido por muitos, possui um estilo muito próprio de tocar. Já vi muitos covers dele por aí. Até agora não vi um que tocasse igual. Tocar igual um artista não é apenas reproduzir as notas de seus riffs e seus solos, mas é saber timbrar o instrumento de acordo, saber manter a palhetada, enfim… E aí está o mistério. A palhetada de Ace, principalmente nos solos, ninguém faz igual. Sorry, folks.
Além de ser um guitarrista de primeira, o rapaz também sempre foi um senhor compositor. Além de ter escrito sozinho alguns clássicos dos mascarados – como “Cold Gin” e “Parasite” – ele é dono da melhor carreira solo entre os músicos do Kiss. Anomaly foi celebrado na época justamente porque trazia o rapaz de volta aos holofotes depois de muito tempo afastado da mídia. Seu último álbum de inéditas havia sido o Trouble Walkin´, lançado em 1989. E o mais bacana de tudo é que ele voltou em boa forma. Boas composições, excelente qualidade de gravação, um cover bem bacana e muito bem executado e um time de primeira por trás.
A primeira parte do disco é para fã nenhum botar defeito. “Fox & Free” e “Outer Space” é nada mais, nada menos do que o som clássico de Ace Frehley com uma dose extra de peso. “Pain In The Neck” se distancia um pouco do seu material pela sonoridade sombria do refrão, mas nos versos remete bastante aos tempos de Frehley´s Comet. O cover de “Fox On The Run” (Sweet) ficou espetacular. Bem rock n roll, bem pra cima. Casou bem na voz de Frehley. “Gengis Khan” não está entre minhas favoritas, mas gosto muito da introdução que ele faz com o violão. “Too Many Faces” é mais um daqueles rocks despretensiosos que ele sabe fazer como ninguém. O refrão nos leva de volta aos dias de Trouble Walkin´, o trabalho solo que mais gosto de Ace.
Para quem acompanha a cena, os músicos do projeto são mais manjados do que cantiga de ninar. Anton Fig chegou a tocar no Frehley´s Comet e gravou com o Kiss os álbuns Dinasty e Unmasked. Scott Coogan é um nome manjado na cena. Já tocou com Lynch Mob, Brides of Destruction e já vinha se apresentando com Ace Frehley desde 2007. O tecladista Marti Frederiksen é muito conhecido como musico de estúdio e já chegou a trabalhar ao lado de Aerosmith, Scorpions, Ozzy Osbourne, Jeff Healey, Sheryl Crow, Motley Crue, para citar alguns. Brian Tichy voltou a ganhar destaque recentemente por seu trabalho ao lado do Dead Daisies, mas antes deles, chegou a gravar com Billy Idol, Gilby Clarke, Vinnie Moore, além de ter feito parte do Pride & Glory, ao lado do Zakky Wylde. Anthony Esposito é mais um músico que fez parte do Lynch Mob. Como podem notar, só nome de responsa.
O disco segue adiante com “Change The World”, uma balada bem bacaninha. A instrumental “Space Bear (Extended)” traz um inspirado riff. Em “A Little Bit of Angels”, o nível cai um pouquinho novamente. A idéia da letra é muito bacana. Fala sobre sua então nova fase de sua vida, a questão da sobriedade (nem é preciso lembrar os inúmeros problemas que esse cara teve com o álcool no passado). O coro com as crianças é uma sacada legal, mas não consegue repetir o impacto de “Great Expectations”. Na sequência, temos “Sister”, uma faixa que seus fãs esperavam pelo lançamento há anos, até então. Ace chegou a tocar esse som em vários shows solo nos anos 90 e a demo dela circulava em vários bootlegs. Facilmente, uma das melhores canções de sua carreira solo. Um acerto tirar esse som do seu velho arquivo. “It´s a Great Life” tem um verso apagado, mas o refrão é bem legal. E encerrando o playlist tradicional temos “Fractured Quantum”. Uma nova sequência para o clássico “Fractured Mirror”. Não supera a original de 78, mas ainda assim é um numero interessante.
Na época de seu lançamento, Ace lançou esse disco em vinil e CD. O CD foi vendido na versão standard e deluxe que trazia uma nova arte, onde você poderia montar o encarte na forma de uma pirâmide. A arte de agora é um digipak simples, onde foram acrescentadas 3 faixas adicionais. “The Return Of Space Bear” já é manjada entre os fãs. Ela era um bônus da versão digital. A curiosidade é que essa é a primeira vez que lançam ela no formato físico. O creme daqui são as demos.
“Pain In The Neck” reaparece em uma versão mais cadenciada, mas a mais bacana de todas é a polêmica “Hard For Me”. Essa é uma canção que Ace escreveu junto com Sebastian Bach (Skid Row) na época do Psycho Circus e acabou ficando fora do disco. Na verdade, eles recriaram uma composição de Ace com Marty Sanders, de 1985. A ideia era manter a letra criada junto com Sebastian, mas o músico teve que altera-la à contragosto, por conta dos dirigentes da gravadora que a consideravam muito forte. A letra gira em torno de sexo e acabou sendo retrabalhada para o álbum e se transformando em “Foxy & Free”. O próprio Ace já disse que prefere a versão original do que a que entrou no disco. Portanto, essa é a hora de matar sua curiosidade. Além disso, o encarte traz o músico comentando um pouco as canções do CD, o que sempre acaba sendo divertido. Ou seja, quem não morre de amores pelo músico e já tem a edição de 2009, está tudo ok. Mas para quem é muito fã de Ace, esse CD acaba sendo um complemento bacana. E quem não pegou na época, bem… Essa é a hora de corrigir o erro.

Nota: 8,5 / 10,0
Faixas:
01) Foxy & Free
02) Outter Space
03) Pain In The Neck
04) Fox On The Run
05) Genghis Khan
06) Too Many Faces
07) Change The World
08) Space Bear (Extended)
09) A Little Below The Angels
10) Sister
11) It´s a Great Life
12) Fractured Quantum
13) Hard For Me
14) Pain In The Neck (Slower Version)
15) The Return Of Space Bear

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Iron Maiden – The Book of Souls: Live Chapter (2017):



Por Davi Pascale

Ícone do heavy metal lança novo trabalho ao vivo. Mesclando músicas de seu mais recente álbum com clássicos oitentistas, grupo britânico agrada sua legião de fãs. Gravado em diferentes cantos do mundo, álbum apresenta faixas gravadas aqui no Brasil.

Iron Maiden é aquele caso clássico: ame ou odeie. Não há meio termo. Assim como também não há meio termo em suas performances. Mesmo com alguns pontos baixos em sua discografia (algo normal na trajetória de uma banda longínqua), os músicos nunca fraquejaram em cima do palco. Os músicos sempre deram 100% de si em suas performances e isso fica claro durante a audição do novo álbum.

Algo que não podemos deixar de notar. Não apenas a banda apresenta um gás invejável, como seu vocalista, o icônico Bruce Dickinson, continua com a voz incrivelmente forte. Nessas horas que gostaria que o álbum tivesse sido gravado em uma única noite. Assim poderia constatar se ele ainda mantém a força de sua voz do início ao fim da apresentação. As músicas são todas incrivelmente altas e ele não é mais um garotinho... De todo modo, sua performance aqui é irretocável.


Ok. Álbum ao vivo do Iron Maiden não é mais uma novidade já tem um tempo, mas o fato de ter sido gravado durante a divulgação de um trabalho de inéditas ajuda a manter um certo frescor. Afinal, no repertório de 15 sons, 6 vieram de seu novo disco. Dessas, as minhas preferidas são as 2 primeiras, as empolgantes “If Eternity Should Fail” e “Speed of Light”.

Como esse é um registro da ultima gira, sim, você irá ouvir alguns clássicos que já foram gravados inúmeras vezes como “Wratchild”, “Iron Maiden”, “The Number Of The Beast”, “The Trooper”, mas a qualidade das composições faz com que sua audição seja satisfatória. Sejamos francos, canções como “Number” e “The Trooper” são clássicos não apenas da donzela, mas do heavy metal.

Algo muito bacana é que foram resgatados alguns daqueles clássicos que seus fãs amam, mas que o ouvinte de ‘greatest hits’, provavelmente, não manja como “Powerslave” e “Children Of The Damned”. Outra sacada legal foi eles terem alterado o bis. Sim, “The Number of The Beast” continua lá abrindo a parte final, mas não temos mais “Hallowed Be Thy Name”, nem “Running Free” ou “Sancutary”. Essas foram alteradas por “Blood Brothers” e “Wasted Years”. Gostei da ousadia, agora só falta trocar “Number” de lugar. Concordo que ela não pode ficar de fora do show, mas que tal abrir um show com ela? Já pensou a empolgação da galera?


A banda continua impecável. Não importa se você faz parte do grupo que os ama ou do grupo que os odeia, mas é fato que os caras sempre foram extremamente profissionais. Steve Harris continua seguro como sempre, Nicko McBrain está cada vez mais preciso, o trabalho de guitarras continua cativante. Tanto Adrian Smith, quanto Dave Murray são bons de solo.

Os fãs brasileiros foram lembrados, mais uma vez, pelos músicos. “Fear Of The Dark”, uma das musicas favoritas do público brasileiro, foi registrada em Porto Alegre, enquanto “Wasted Years” traz um registro no Rio de Janeiro. Realmente, muito bacana.

Em um primeiro momento, muitos podem ter uma impressão errada de que 15 músicas é pouco. Não vemos nos esquecer que estamos falando de uma banda que adora escrever canções de 7, 10, 13 minutos de duração. O show não é muito curto não...

The Book of Souls: Live Chapter mostra uma banda afiada com um ótimo repertório em mãos. A qualidade de gravação, conforme de se esperar, é impecável. Para quem é fã dos rapazes, o trabalho é imperdível.

Nota: 9,0 / 10,0

Faixas:

CD 1:
      01)   If Eternity Should Fail
      02)   Speed of Light
      03)   Wratchild
      04)   Children Of The Damned
      05)   Death Or Glory
      06)   The Red And The Black
      07)   The Trooper
      08)   Powerslave

CD 2:
      01)   The Great Unknown
      02)   The Book of Souls
      03)   Fear Of The Dark
      04)   Iron Maiden
      05)   The Number Of The Beast
      06)   Blood Brothers
      07)   Wasted Years