segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Marilyn Manson – Heaven Upside Down (2017):



Por Davi Pascale

Quem viveu os anos 90, lembra-se perfeitamente do auê que foi a chegada de Marilyn Manson à grande mídia. Tendo em suas costas, o emblemático Antichrist Superstar, o cantor chocava os mais conservadores com suas declarações estapafúrdias, seus shows cheios de críticas políticas, religiosas e conotações sexuais.

Esses dias se foram. Manson hoje não assusta mais ninguém. Depois de 20 anos invadindo revistas e tabloides, o cantor deixou de ser uma figura chocante para se tornar uma figura excêntrica. Há outra questão. Quando estourou com “The Beautiful People”, o metal industrial era um gênero relativamente novo e a garotada estava interessada em descobrir mais sobre aquele som. Hoje, vivemos outra realidade. O indie é a bola da vez. Onde quero chegar? Esse disco não vai causar um grande estardalhaço, o que é uma pena já que esse é seu trabalho mais inspirado em anos...

Em seu CD anterior, The Pale Emperor, Manson buscou ajuda em Tyler Bates, um compositor de trilhas sonoras. Era uma tentativa de se reinventar. Aqui, o cantor busca sua ajuda, mais uma vez. Continuo não gostando de Bates produzindo Manson. Acho que ele deixa o som limpo demais. Algo que pode ser muito bacana para determinados artistas, mas não para alguém do porte de Marilyn Manson.

Heaven Upside Down traz uma equação bem resolvida, em relação à composição. “Revelation #12” abre o disco trazendo sua sonoridade clássica. Ou seja, o velho metal industrial repleto de efeitos e com o cantor esgoelando. O lado ruim é que faltou um pouco de peso. Fator que tira o brilho de faixas fortes como “We Know Where You Fucking Live” e, principalmente, em “Say10”, onde soa quase como uma demo.

Há algumas ‘novidades’ em seu som. O flerte com o rap em “Tattooed In Reverse” e a pegada dançante de “Kill4Me” não é a primeira coisa que vem à mente quando pensamos no artista norte-americano. E funcionaram bem. Também é possível encontrar uma referência de post-punk em “Saturnalia”, a faixa mais longa de seu novo disco. Outro bom momento.

“Heaven Upside Down” e “Threats of Romance” surgem, depois de algumas faixas menos inspiradas, para colocar tudo nos trilhos novamente e encerrar o CD em grande estilo. Não, ele não se iguala ao Portrait of An American Family, ao Mechanical Animals, muito menos ao Antichrist Superstar, mas já tinha um tempinho que Marilyn Manson não vinha com composições tão fortes e tão bem resolvidas. Não há dúvidas de que essas canções devem crescer – e muito – nos shows.

Com um pouquinho mais de peso na mixagem final, esse disco teria sido uma volta ao topo. Infelizmente, a produção excessivamente clean tira um pouco do brilho. De todo modo, um bom álbum. Vale a pena conferir.  

Nota: 7,5 / 10,0
Faixas:
      01)   Revelation #12
      02)   Tattoed In Reverse
      03)   We Know Where You Fucking Live
      04)   Say 10
      05)   Kill 4 Me
      06)   Saturnalia
      07)   Jesus Crisis
      08)   Blood Honey
      09)   Heaven Upside Down 
      10)   Threats of Romance

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

The Unity – The Unity (2017):



Por Davi Pascale

Esse projeto do Henjo Richter e do Michael Ehré (guitarrista e baterista do Gamma Ray, respectivamente) foi uma grata surpresa para mim. É comum os caras criarem trabalhos solo ou bandas paralelas para gravarem alguns sons que não conseguiram emplacar em sua banda principal e seguirem a risca a sonoridade do grupo que lhes rendeu fama. Esse não é o caso aqui. O The Unity soa bem diferente do Gamma Ray e, embora não traga nada de revolucionário, demonstra poder de fogo.

Se o projeto irá sobreviver ou se será restrito à um único álbum (como foi o Supared do Michael Kiske) só o tempo dirá. A verdade é que, embora não seja inovador, o material tem muita qualidade e sua audição é empolgante.

Do mesmo jeito que o Megadeth tem uma relação com o Metallica (Dave Mustaine fez parte da primeira formação dos ícones da bay area), o Gamma Ray tem com o Helloween. E é possível pegar algumas referências do antigo grupo de Kai Hansen. Seja nos versos e aplicação de teclado de “Always Just For You” ou até mesmo no refrão de “Firesign”. A verdade é que em alguns momentos é simplesmente impossível não nos remetermos à trupe de Michael Weikath.

Mas nem só de Helloween vive o disco. A faixa de abertura remete diretamente aos anos de ouro do problemático e talentoso Yngwie Malmsteen. Gianbattista Manenti, o italiano responsável pelas cordas vocais, se demonstra um diferencial dentro da banda. Contando com uma voz forte e potente, usa o drive com uma boa moderação e abusa menos dos falsetes do que os demais vocalistas do gênero. Ainda não ouvi o cara ao vivo, mas o trabalho vocal do disco é excelente.



Outro grande destaque do álbum são os riffs de guitarra. O mais diferente de todos foi o de “Redeemer” que traz uma pegada meia bluesy, remetendo aos riffs que Ritchie Blackmore costuma escrever. Lembra um pouco o riff de “Man On The Silver Mountain” (Rainbow). Aliás, o refrão pomposo e cadenciado remete bastante ao Rainbow fase Dio.

Essa é praticamente a pegada do disco. Uma mescla de power metal, metal tradicional e hard rock setentista (o refrão de “The Wishing Well”, por exemplo, traz fortes referências de Whitesnake). Realmente, eles não foram os primeiros a fazer isso (acredito que Masterplan e Edguy sejam bons exemplos dessa mistura) e não serão os últimos, mas como disse, o resultado final é muito acima da média. A qualidade de gravação é excelente, as músicas são empolgantes. Não há dúvidas de que se trata de um bom começo.

O álbum se encerra com “Never Forget”. Música bem bacana que conta com um animado refrão que poderia facilmente ter sido escrito por Tobias Sammet (Edguy, Avantasia). Uma boa musica para deixar o publico cantar um pouco nas apresentações.

O trabalho de estreia dos rapazes já foi lançado aqui em nosso país. Portanto, é fácil de ser encontrado. Só não vai se empolgar com o nome dos dois no anuncio e esperar algo na linha do Gamma Ray. Como deixei claro, embora a influencia do power metal siga intacta, sua sonoridade é mais cadenciada e mais melódica. De todo modo, é um trabalho muito bem feito que merece atenção.

Faixas:
      01)   Rise and Fall
      02)   No More Lies
      03)   God of Temptation
      04)   Firesign
      05)   Always Just You
      06)   Close To Crazy
      07)   The Wishing Well
      08)   Edens Fall
      09)   Redeemer
      10)   Super Distortion
      11)   Killer Instinct 
      12)   Never Forget

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Solid Rock – Allianz Parque (13/12/2017):



Por Davi Pascale

Para quem já frequenta shows há algum tempo (meu caso), a situação já era previsível. Ingressos caros, show em plena quarta-feira, atrações que não possuem um enorme público e uma atração principal que toca com frequência em nosso país. A cena já era vista à distância. A empresa tentou de tudo. Ingressos na Black Friday, promoção pague 1, leve 2, mesmo assim, a arena não lotou.

Temos ainda mais um grande problema. O publico se acostumou a espetáculos estilo greatest hits. Quando surge um artista que não possui inúmeros sucessos radiofônicos, eles se sentem ofendidos com sua escalação. Independente da qualidade da banda. O que vi de nego xingando a produção do evento porque eles não conheciam nada das atrações escolhidas, não está escrito no gibi. E olha que para quem acompanha rock n roll há algum tempo, esses nomes são manjados. Especialmente, o Cheap Trick. Sem contar que hoje é fácil ouvir material das bandas sem pagar nada, utilizando-se de algo chamado streaming.

A cena ficou visível na primeira atração da noite, os americanos do Tesla. Com uma carreira de mais de 30 anos nas costas, o grupo californiano, teve que fazer sua primeira apresentação em São Paulo para um público menor do que ao de um artista de churrascaria. Aliás, a produção colocou os garotos no palco meia hora antes do horário anunciado. (?!?!?!) Mesmo assim, os músicos não se abalaram e fizeram uma apresentação com bastante energia. Jeff Keith corria no palco de um canto para outro, mantinha a aura de rock star cheio de caras e bocas. Mesmo estando com 59 anos, demonstrou estar com a voz em forma.




A formação que veio para cá está junta desde 2006 e não muda muito da original. Apenas Dave Rude entrou no lugar de Tommy Skeoch. O resto da galera é a mesma que víamos nos clipes nos anos 80 e 90. Ou seja, Brian Wheat, Troy Lucketta, Frank Hannon e o já citado Jeff Keith. Como o tempo era curto (perto de 50 minutos), os garotos fizeram o set em cima de seus álbuns antigos. O setlist foi recheado de clássicos como “Edison´s Medicine”, “The Way It Is”, “Hang Tough”, “Modern Day Cowboy” e “Heaven´s Trail (No Way Out)”. O publico parecia não conhecer o material. Nem mesmo a balada “Signs”, mas para quem conhece e gosta da banda, a apresentação foi mágica. Nostálgica e extremamente profissional.

A segunda atração da noite foi o Cheap Trick. Também estreando em palcos brasileiros, os rapazes mantiveram a energia intacta, ao menos no palco, com uma apresentação bem rock n roll. Robin Zander e Rick Nielsen vieram com seus trajes característicos e demonstraram um enorme carisma. O som estava alto, mas não tão bem definido quanto ao do Tesla. Da onde eu estava, tinha uma enorme dificuldade de ouvir o baixo, por exemplo.

Ao contrário da primeira atração, não ficaram apenas nos clássicos dos anos 70. Misturaram novas e velhas canções. Tática bacana, mas que em um festival como esse, é algo arriscado. A animação da plateia oscilava. Embora os músicos fizessem de tudo para tentar manter a animação dos presentes. Suas canções mais marcantes como “In The Streets” (um cover do Big Star que ganhou enorme projeção ao ser utilizado como canção de abertura da série That 70´s Show), “Surrender” e “I Want You To Rock Me” tiveram uma boa receptividade do público, assim como a versão mais pesada de “Ain´t That a Shame” (clássico de Fats Domino que já foi regravada por meio mundo, inclusive pelo próprio Cheap Trick em seu cultuado LP Cheap Trick At Budokan), já clássicos como “Dream Police” não tiveram a reação esperada. Apresentando um show com pouco mais de 70 minutos, os músicos entregaram uma apresentação divertidíssima e redondíssima. Aliás, vale destacar a performance de Robin Zander. O cara ainda canta muuuito. Mais uma vez, os fãs que compareceram saíram maravilhados.

Às 22h subia ao palco a atração principal da noite. Os veteranos do Deep Purple. Há quem diga que essa é sua última turnê. A verdade é que nunca dá para saber. Eu me recordo de ter visto David Coverdale se despedindo dos palcos em 1997. E vejam só... Se bem que os músicos do Purple já estão em uma idade avançada. Então, já é um pouco mais provável. Afinal, o pique vai diminuindo. Natural da idade.




O show começou com o clássico “Highway Star”. Já ficou claro o que estava por vir. Som impecável. Banda afiadíssima. Plateia, finalmente, animada. E o lendário Ian Gillan fazendo de tudo para manter o nível do espetáculo. A parte cantada, ele ainda vai bem, mas nos falsetes já demonstra uma enorme dificuldade.

A banda foi sábia ao montar o repertório. Contando com bastante improviso e músicas que não exigem tanto da voz, o grupo manteve o alto nível durante todo o espetáculo. Clássicos como “Strange Kind Of Woman”, “Pictures of Home”, “Lazy” e “Space Truckin” levantaram os presentes, mas a galera pegou fogo mesmo durante a execução dos mega clássicos “Perfect Strangers” e “Smoke On The Water”. De Infinite, apenas “Birds of Prey” deu as caras.

Steve Morse, Don Airey, Roger Glover e Ian Paice foram praticamente perfeitos. Apenas “Knocking At Your Back Door” que achei o tempo um pouco lento demais. Gillan segurou bem a peteca. Sejamos sensatos que não é fácil fazer um show desse porte com 72 anos de idade. Se essa for sua ultima turnê mesmo, saem por cima. Resumo da noite: 3 baita shows, mas com uma plateia decepcionante.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Cachorro Grande – Costa do Marfim Deluxe Edition:



Por Davi Pascale

Deluxe edition no Brasil não é algo muito comum. Ainda mais em lançamento de LP´s. Na gringa, sim. Existem edições caprichadíssimas. Dignas de fazer com que o cara mais marrento babe por meses a fio. A nova edição do Their Satanic Majesties Request do Rolling Stones (que comentarei em breve por aqui) é uma delas. Portanto, a ideia é digna de aplausos por si só. Temos que aprender a valorizar nossa arte.

Quem também é digno de aplausos é a turma do Cachorro Grande. Além de estarem ajudando a salvar o rock n roll brasileiro entregando um som afudê, os meninos não estão deitados em berço esplêndido. Enquanto muito artista se acomoda em uma fórmula, os caras ousaram diversas vezes em sua trajetória. Sua maior ousadia foi justamente esse disco.

Conhecidos por entregarem um som rock n roll de garagem bebendo na fonte dos anos 60 (especialmente grupos como TheBeatles, The Rolling Stones, The Kinks e The Who), os gaúchos foram além em seu sétimo álbum. Costa do Marfim trazia os músicos mesclando seu som com elementos eletrônicos e apostando em uma grande dose de psicodelia. Uma espécie de Screamadelica brasileiro. Minhas músicas favoritas desse play são “Eu Não Vou Mudar”, “Como Era Bom” e “Eu Quis Jogar”.

Mais do que uma edição comemorativa, essa é uma edição especial para colecionadores. Amantes dos vinis, os músicos tiveram todo o cuidado no preparo desse material. O vinil vem com capa gatefold (a famosa capa dupla), foram prensados em mídia verde 160 gramas e gravados em 45 RPM para garantir uma maior fidelidade do som. O vinil também não foi prensado no Brasil, foi prensado na República Tcheca. Material de primeira.


Como a ideia era pegar colecionadores e os fãs mais doentes, o material foi prensado em apenas 105 cópias numeradas. Por que 105 cópias e não 100? Não sei, mas arrisco dizer que os músicos brincaram de Beatles e pegaram as 5 primeiras cópias desse material para eles (para quem não entendeu a brincadeira. O White Album dos Beatles vinha com numeração na capa e as primeiras copias ficaram com John, Paul, George e Ringo).

O Box é bacaninha. Um papelão grosso com um uma cordinha. O material gráfico também é bem legal. Foram criados, unicamente para essa edição, um pôster com uma foto do show no Sesc Pompeia (São Paulo) e 7 fotos com imagens da apresentação no Bar Opinião (Porto Alegre). As fotos são realmente muito bonitas.

O único senão é que essa reedição não conta com nenhuma música adicional. É exatamente o mesmo material do CD. Nenhuma versão ao vivo, nenhuma demo, nada do tipo. Apenas as faixas do disco. Contudo, para quem é muito fã dos rapazes, vale o investimento. Afinal, a produção é lindíssima e com o tempo esse material deve se tornar raro e possivelmente valioso. Se hoje ele custa R$290,00, após esgotado é capaz que passe a valer mais de R$500,00 brincando.

A ideia dos músicos era lançar esse material no final de 2014, como um presente de Natal. Contudo, o material ficou retido na alfândega e somente agora conseguiram liberar o material. Bom... dá tempo de presentearem o Natal de 2017. Puta presente.

Faixas:
Lado A:
      01)   Costa do Marfim
      02)   Nós Vamos Fazer Você Se Ligar
Lado B:
      03)   Nuvens de Fumaça
      04)   Eu Não vou Mudar
      05)   Crispian Mills
Lado C:
      06)   Use o Assento Para Flutuar
      07)   Como Era Bom
      08)   Eu Quis Jogar
Lado D:
      09)   Torpor Partes 2 & 5
      10)   O Que Vai Ser     
      11)   Fizinhur

domingo, 26 de novembro de 2017

David Bowie – The Man Who Changed The World (2016):



Por Davi Pascale

Finalmente parei para assistir o documentário sobre o camaleão do rock. E, infelizmente, tenho que constatar: esperava muito mais. Sem músicas, poucos entrevistados, poucos depoimentos realmente interessantes. Para os velhos fãs de Bowie, um verdadeiro banho de água fria.

O filme não é muito longo. Pouco mais de 90 minutos. Então, não cansa assisti-lo, mas peca em diversos momentos. O áudio não é muito bem editado. O volume da narração está muito mais baixo do que o volume das entrevistas. Do jeito que o cantor era perfeccionista, se assistisse algo desse tipo, teria uma parada cardíaca nos primeiros 10 minutos.

O roteiro também não ajuda muito. E a desculpa de ser curto, não cola. O RockHistória da MTV durava pouco mais de 20 minutos e teve episódios onde aprendi muito mais sobre os artistas do que essa película aqui. Bowie é um artista que tem muita historia para se contar. Poderia se comentar sobre o fato dele sempre estar antenado com o novo universo musical, poderia se explicar com riqueza a criação do Spiders From Mars, falar sobre como ele ajudou a revolucionar o mercado de videoclipes, a influencia que sua obra teve em cima de artistas e movimentos musicais...

O que temos aqui é aquele típico documentário unauthorized sem musicas do artista, inúmeras fofocas e bastante comentário sobre seus dias pré-fama. Ok, aqui temos alguns momentos interessantes como sua admiração por Anthony Newley, suas aventuras na folk music e seus anos de David Jones.

O grande pecado é que o filme tenta vender a ideia do artista que revolucionou o mundo (daí o titulo brincando com o nome do clássico “The Man Who Sold The World”), o que não é nenhuma mentira, mas não explica como isso aconteceu. A parte musical é muito mal contada. Não me recordo nem de terem citado o nome de Brian Eno por aqui. Quando vão citar a trilogia de Berlim, comentam por cima sobre o Iggy Pop, mas não comentam sobre a influencia de krautrock, de Kraftwerk, etc. Se você que conhecer mais curiosidades sobre a música de Bowie, esquece.



O filme foca muito na questão visual. No lance de usar roupas e utensílios não usual para os padrões da época, o que realmente ocorreu, sobre o fato de acreditar em vida extra-terrestres e jurar, por mais de uma vez, ter visto discos voadores. Uma fofoca interessante foi o depoimento de seu amigo de escola que lhe deu um murro no rosto dilatando sua pupila para sempre. Ele explica que foi por uma garota, mas até isso está mal explicado. Quem era essa garota? Onde a briga aconteceu? Algum deles chegou, de fato, a namorar a garota?

O que deixa o longa um pouco mais interessante são os depoimentos do próprio David Bowie, extraído de arquivos, que conseguia responder com simpatia e inteligência perguntas nem sempre inteligentes. Há momentos interessantes quando ele diz que a música é o mais importante de tudo (escolha de depoimento um tanto estranha para um documentário com esse viés), o fato de que ele nunca quis ter um ‘som Bowie’ e o fato dele não gostar de alguns de seus discos mais famosos.


The Man Who Changed The World serve para passar o tempo, serve como uma distração, mas se você pretende compreender melhor suas transformações, descobrir como ele criou tal musica ou criou tal personagem, entender sua relação com músicos/produtores, sua visão de empreendedor, não será aqui que você terá essas respostas. Por sua conta e risco.

sábado, 18 de novembro de 2017

Melissa Etheridge – A Little Bit Of Me: Live In L.A. (2015):



Por Davi Pascale

Aula de rock n´ roll e profissionalismo. É exatamente isso o que temos aqui. Pode ser que alguns de nossos leitores nunca tenham ouvido falar de Melissa Etheridge. Realmente, aqui no Brasil, ela não é tão popular. Especialmente, entre a juventude. Nos Estados Unidos, contudo, ela é bem respeitada. A cantora, que já ganhou 2 grammys,  é conhecida por sua voz potente, suas letras confessionais e por seu lado ativista. Homossexual assumida, a artista luta pela causa LGBT desde 1993.

Contudo, é bom deixar claro. Ela não é aquela artista que gosta de chocar. Muito pelo contrário. No palco, rouba toda a atenção por sua musicalidade. Seja arriscando algumas notas no teclado em “Monster”, seja na sua voz rouca e potente, ou ainda na sua performance nas guitarras e violões. Utilizando-se quase sempre de instrumentos de doze cordas, chega a arriscar diversos solos durante o show. Não há espaço para beijo gay, discurso político, nem nada do tipo. A música fala por si.

A apresentação escolhida foi registrada no luxuoso Orpheum Theater (Los Angeles) em 12 de Dezembro de 2014, durante a divulgação de This Is M.E. Álbum que lançou de maneira totalmente independente e que trazia uma sonoridade mais pop, mais moderna. Nos shows, contudo, a pegada era a mesma de sempre. Arranjos roqueiros passando pelo folk e pelo blues.

Os músicos são de primeira, com destaque para o excelente baixista Jerry Wonda. Extremamente seguro, o rapaz demonstra um feeling fora do comum. Melissa é um caso à parte. Na estrada há mais de 30 anos, sua voz não dá sinal de cansaço. Continua jogando a voz para cima durante todo o concerto, coloca uma emoção inacreditável em sua interpretação, além de ser uma boa instrumentista, conforme já citado. Parte desse conhecimento, certamente, veio da estrada. Na fase pré-fama, a moça fazia apresentações de voz/violão por 4 horas seguidas. Parte, veio por sua formação musical. Melissa não é curiosa. Ela é formada na Berklee College of Music. Ou seja, sabe exatamente o que está fazendo ali.




O repertório pode parecer curto em um primeiro momento, mas na verdade, não é. Embora sejam apenas 13 canções, várias músicas, especialmente na segunda metade, ganharam arranjos estendidos e improvisos. No show de quase 2 horas, foi apresentado 4 canções de seu, até então, mais novo álbum (“I Won´t Be Alone Tonight”, “Take My Number”, “A Little Bit Of Me” e “Monster”) e 9 músicas das antigas. Clássicos como “I Want To Come Over”, “Come To My Window”, “Bring Me Some Water”, “Like The Way I Do” e “I´m The Only One” não foram esquecidos.

Sua energia no palco segue intacta. A moça nunca se deixou abalar, para dizer a verdade. Nem mesmo quando enfrentou um câncer de mama em 2004. Aqui no Brasil ficou muito popular um vídeo dela cantando “Piece Of My Heart” (Janis Joplin) junto com a Joss Stone na edição do Grammy de 2005. Embora seja conhecida por sempre estar com cabelos compridos, Melissa aparecia ali totalmente careca. A razão era essa. Naquela época, estava enfrentando uma quimioterapia. Aqui, comemora o fato de estar livre do câncer há 10 anos. Melissa aparece alegre, falante e cheia de energia. Quem não conhece sua história, nem imagina os perrengues que já passou...

A Little Bit Of Me é extremamente bem gravado e apresenta um repertório certeiro. Quem já conhece e curte seu trabalho, ficará maravilhado com o vídeo. Quem não conhece sua obra e resolver se arriscar é bem provável que acabe se tornando fã. Show de altíssimo nível.

Nota: 9,0 / 10,0

Faixas:
      01)   I Won´t Be Alone Tonight
      02)   I Want To Come Over
      03)   Chrome Plated Heart
      04)   Take My Number
      05)   Come To My Window
      06)   Ruins
      07)   A Little Bit Of Me
      08)   If I Wanted To
      09)   Meet Me In The Black
      10)   Bring Me Some Water
      11)   I´m The Only One
      12)   Like The Way I Do
      13)   Monster
      14)   Entrevistas
      15)   Backstage Pass

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Motorhead – Under Cover (2017):



Por Davi Pascale

Under Cover é um album póstumo do Motorhead criado com a intenção de cobrir um buraco em sua discografia. Os músicos chegaram a comentar entre eles, diversas vezes, sobre a vontade de fazer um trabalho de covers, mas infelizmente, não deu tempo. Para realizarem um sonho antigo e, ao mesmo tempo, homenagear seu velho colega, o lendário Lemmy Kilmister, resolveram criar essa coletânea.

Embora traga gravações de diferentes fases, o álbum não soa como uma colcha de retalhos. A razão disso é apenas uma. Os rapazes nunca modificaram muito sua sonoridade no decorrer dos anos. A banda sempre se manteve fiel ao seu princípio. Portanto, salvo “Rockway Beach” (que saiu de uma demo), o restante do material mantém, não apenas a qualidade de gravação, quanto a sonoridade dos arranjos.

As musicas presentes aqui foram retiradas, em sua maioria, de discos e singles. E do mesmo jeito que não gostavam de inventar moda nas suas músicas, o trio obedecia a mesma logica na hora de prestar suas homenagens. Ou seja, não recriavam música nenhuma. Eles aprendiam a musica e tocavam como se fosse uma musica do Motorhead. Com a mesma pegada, a mesma porrada. Trabalho extremamente rock n´roll, no sentido literal da expressão.

“Shoot Em´ Down” e “Starstruck” foram retiradas de álbuns tributos que os rapazes participaram. O velho clássico do Rainbow contou com a ajuda vocal de Biff Byford, o lendário vocal do Saxon, por conta dos problemas de saúde que Lemmy já enfrentava na época. A parceria funcionou incrivelmente bem. Gravação extremamente mágica.




Lemmy sempre teve um estilo muito próprio de cantar, portanto, algumas escolhas podem parecer meio ousadas a principio. Entretanto, tudo conspirava ao seu favor, já que eles não ficavam preocupados em reproduzir a voz original. Os caras entravam no estúdio, sentavam o pau e acabou. Simples, direto, como uma boa banda de rock n roll deve ser.

“Hellraiser” foi uma canção que Lemmy escreveu para seu velho amigo Ozzy Osbourne. Difícil escolher qual versão é a mais forte. Se a de March or Die ou se a de No More Tears. “Cat Scratch Fever” (Ted Nugent) também soa magica na versão da banda.

As escolhas mais inusitadas, em se tratando de Motorhead, certamente são as duas gravações que fizeram do Rolling Stones – “Sympathy For The Devil” e “Jumpin´ Jack Flash” – e a grande surpresa desse CD, o cover de “Heroes” do camaleão David Bowie. A música é uma sobra de Bad Magic, ultimo álbum de inéditas do Motorhead. Foi uma das ultimas musicas gravadas pelo Lemmy. E embora possam parecer dois artistas extremamente distantes – e são – o resultado final ficou bem interessante.

Under Cover faz justiça ao legado da banda. Trata-se de um trabalho bem rock n roll, para cima, que soa despretensioso e empolgante. Uma ótima banda resgatando clássicos do rock n roll. Ideia bem sacada e trabalho extremamente divertido que nos coloca um sorriso no rosto ao ouvirmos, mais uma vez, o inconfundível timbre do Lemmy. Play it loud!

Nota: 9,0 / 10,0

Faixas:
      01)  Breaking The Law (Judas Priest)
      02)  God Save The Queen (Sex Pistols)
      03)  Heroes (David Bowie)
      04)  Starstruck (Rainbow)
      05)  Cat Scratch Fever (Ted Nugent)
      06)  Jumpin´ Jack Flash (The Rolling Stones)
      07)  Sympathy For The Devil (The Rolling Stones)
      08)  Hellraiser (Ozzy Osbourne)
      09)  Rockaway Beach (Ramones)
      10)  Shoot ´Em Down (Twisted Sister)
      11)  Whiplash (Metallica)