domingo, 16 de junho de 2019

P.U.S. – Presets (1996):




Por Davi Pascale

Heavy metal, samplers e batuques

Toda vez que um artista faz algo fora do seu território, um verdadeiro massacre acontece. Tanto por parte da crítica, quanto por parte dos fãs. Há vezes, realmente, em que o artista pisa no tomate, mas tem vezes onde a crítica é um tanto injusta. Esse álbum do P.U.S. é um trabalho que considero as críticas um tanto quanto infundadas, mas antes de falar sobre o álbum, vamos entender um pouquinho o cenário.

O P.U.S. foi criado em 1987, em Brasília, e apostava inicialmente em uma sonoridade onde mesclava elementos de hardcore com o death metal. Hoje, seria considerado um som old school. Na época, era, bem...  O som da época! Seu primeiro registro foi um compacto que atendia pelo nome de Third World, lançado no ano de 1990. Seu primeiro LP, auto-intitulado, foi lançado no ano seguinte. Esses dois primeiros registros apontavam exatamente nessa sonoridade death/hardcore e colocavam o grupo no centro do metal extremo nacional.

Seu trabalho seguinte, Sin In The Only Salvation, de 1994, trazia algumas mudanças no som do grupo. Os músicos apostavam em uma sonoridade um pouco mais cadenciada, trazendo um som  mais elaborado que pendia mais para o thrash metal do que para o death metal propriamente dito. As letras também sofreram algumas modificações. As letras sobre sexo foram deixadas de lado. Os assuntos continuavam obscuros, mas os temas mudaram. Deixaram assuntos como morte e violência de lado, e passaram a falar sobre ocultismo, escuridão, além de canções repletas de criticas sociais. Uma delas escrita ao lado do saudoso Chico Science (sim, o próprio), que também faz uma participação na faixa, o quase-hit “Comando Vermelho”.

Pouco a pouco, a popularidade crescia. Os músicos começaram a passar por todas aquelas experiências que uma banda que está em ascensão passa. Tiveram clip veiculado na MTV, começaram a participar de grandes festivais (entre eles, o Super Metal Festival, onde dividiram o palco com Korzus, Krisiun, Kreator, entre outros), tiveram reportagens em revista, os músicos começaram a conseguir patrocínios com grandes marcas, etc. O problema é que os caras queriam mais e o publico de metal, como já sabemos, tende a ser conservador.

Anúncio da Washburn com Syoung na fase do Presets

Na época de Sin Is The Only Salvation, a banda era formada pelo casal Ronan (voz) e Syoung (guitarra), além de Selvagem (baixo) e Rodrigo (bateria). Aqui, a banda já havia sofrido dois baques. A saída do guitarrista Xicone, que participou apenas do compacto, e a morte do baterista Feijão, com quem haviam gravado o primeiro long play. O rapaz morreu, na época, vítima de HIV. O próximo trabalho traria mais mudanças. Tanto na formação, quanto na sonoridade. E as mudanças começam com um inusitado encontro.

Antonio Celso Barbieri é um jornalista e produtor que morava em Londres. Ele era um dos contatos internacionais da MTV Brasil. Foi ele quem forneceu as imagens do Korzus se apresentando no Marquee Club para que fossem utilizadas no especial sobre a banda. Pois bem... Eis que, em 1995, ele recebe um telefonema de Cezar, diretor de Relações Internacionais da MTV Brasil, pedindo para que desse uma força para um casal de amigos que estavam indo passar uns dias em Londres. Tratava-se, justamente, de Ronan e Syoung. O rapaz não sabia nada a respeito da banda, nem dos músicos, mas não tinha como dizer não à cúpula da MTV.

Nessa época, Barbieri estava ouvindo muito rock industrial. Em especial, uma banda alemã chamada Die Krupps. E a sonoridade começou a fazer a cabeça do casal. Um dos passeios que os três fizeram juntos foi conferir de perto algumas atrações em um clube chamado Slamelight. Uma casa bem underground, frequentada por punks e góticos que se achavam vampiros... A sonoridade? Rock industrial, é claro. Aqui no Brasil, pouco se falava sobre o gênero, mas EUA e Europa já começavam a se render ao fenômeno.

Todo esse cenário foi uma influência direta na construção da nova fase. Rodrigo seguiu na banda. O baixista Selvagem, que havia sofrido um grave acidente e estava fazendo vários shows sentado, pediu as contas e foi substituído pelo baixista Fred.  Alexandre Hercovitch e Rui Mendes foram contratados para ajudarem a criar a nova imagem do grupo. Completavam o novo time, o experiente tecladista Franco Junior (que já havia trabalhado com o Paulo Ricardo no início dos anos 90) e a dupla de percussionistas Black Angels. E assim, formava-se o time de Presets, o ultimo álbum do P.U.S. que chegaria às lojas em 1996.

Foto promocional da banda 

A banda continuava sendo uma banda de heavy metal, as influências de hardcore continuaram, as guitarras de Syoung continuavam sendo um destaque com riffs certeiros. O problema é que eles tiraram essa pegada mais extrema. Abandonaram as influências de death e thrash e trouxeram teclados, samplers e percussão afro-brasileira. Syoung começou a aparecer um pouco mais como cantora e Ronan mudou totalmente seu estilo. Os vocais guturais sumiram. Eu, particularmente, prefiro ele cantando limpo, mas claro que os fãs da época malharam os caras e os taxaram de vendidos, traidores e tudo mais.

“Presets” inicia o álbum já jogando todas as mudanças na cara. A percussão costurando o arranjo, as guitarras distorcidas, os teclados, as vozes mesclando o vocal de Ronan com os vocais de Syang... Essa foi uma das 2 contribuições de Barbieri como letrista. “Seu Verino” foi o single do álbum com direito a clipe e tudo mais. A música tinha uma pegada mais comercial e é meio que uma homenagem ao Selvagem. “Unreal” trazia os músicos entrando de cabeça na sonoridade eletrônica, com Syang cantando de modo sensual com direito à gemidos e sussurros. Essa trinca inicial é muito boa e mostrava o grupo no auge da criatividade.

A maior polêmica do álbum vem a seguir. Os músicos regravaram “Mosh”, uma musica de seu primeiro registro, só que usando essa sonoridade mais moderna. Os fãs ficaram putos, mas a real é que ficou bem interessante. “If” dá uma derrubada no andamento, mas mantém a qualidade das composições. Em “Via Adultera”, o nível das composições cai. “I See It All” também não ajuda muito. Ainda que goste da ideia de ter Ronan e Syang dobrando as vozes, acho a composição sem sal. São canções que dão a impressão que a intenção foi boa, mas ficou faltando alguma coisa.

“Desempregado” é mais uma volta ao passado. É uma musica do Detrito Federal, banda que a Syoung tocava antes de se aventurar como guitarrista do P.U.S. Os backings são repletos de participações especiais como Digão (Raimundos), Laura Finnochiaro e até mesmo Kiko Zambianchi. Musica mediana apenas, mas a audição é, no mínimo, curiosa. “Hopeless Man”, mais uma contribuição de Barbieri, chega diminuindo o andamento mais uma vez, só que voltando a inspiração lá para cima. “Asma” fecha a parte de composições inéditas e também é bem legalzinha. Acredito que seja a que apresenta sonoridade mais direta dentre as faixas do álbum. Bem, ela e “Severino”.

Fita K7 promocional com canções que iriam para o album

No final do disco, temos 3 remixes. 2 da faixa “Unreal”, que são dispensáveis, e 1 da faixa “Desempregado”, que é muito bom. Honestamente, achei que tem mais a ver com o clima do álbum e ficou mais instigante do que a versão escolhida para integrar o tracklist. Arranjo bem mais inspirado. Essa deveria ser a versão oficial, na minha opinião. Outra curiosidade é que esse álbum trazia um CD-Rom, onde podíamos assistir ao clipe de “Seu Verino”, que fez bastante sucesso na MTV, na época. A qualidade de imagem era regular, mas a intenção era boa e o clipe, apesar de contar com uma produção bem simples, era divertido.

Claro que o álbum tem alguns deslizes, como mencionados no texto, mas a verdade é que sua audição é bem interessante. Trata-se de um trabalho inteligente, diferente, ousado, corajoso, muito bem feito e que mereceria uma atenção maior. Infelizmente, esse foi o trabalho que acabou com a trajetória da banda. O grupo não aguentou a pressão e encerrou as atividades pouco depois. Realmente, uma pena! Da galera que tocava na banda, somente a guitarrista Syoung, conseguiu um momento de destaque na mídia ao trocar seu nome para Syang e apostar em trabalhos mais populares. No momento, ela vive nos arredores de Los Angeles e dá aula de jiu-jitsu por lá. É galera, esses tempos não voltam mais. Infelizmente...

2 comentários:

  1. Aliás, diz a lenda que a música "Seu Verino" foi uma espécie de cutucada no baixista Selvagem. Confesso que se for verdade, foi bem de mau gosto.

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  2. Será?! Já tentei achar essa letra para ler com calma, mas não acho em lugar nenhum. Tenho o CD original, mas no encarte não constam as letras...

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