Por Davi Pascale
Agora, em 2014, completam-se 20
anos que o álbum de estréia dos Raimundos chegou às lojas. Durante muitos anos,
foram porta-vozes de uma geração. Os garotos se vestiam igual à eles, utilizavam
as mesmas gírias, usavam camiseta do grupo etc etc etc. Atualmente os caras
vivem uma etapa bem diferente. Sem o carismático vocalista Rodolfo, se viram em
500 para se manterem na ativa e, principalmente, para não cair no esquecimento.
Como todo bom grupo de rock deve
ser, foram incômodos. Suas letras, que falavam de putaria e maconha, incomodavam
muita gente. O pessoal das gerações anteriores não compreendia o que era o
Raimundos e os acusavam de ser um conjunto que não tinha nada a dizer e de ser
uma má influencia para a juventude.
É claro que essas pessoas não
sacaram qual era a dos meninos de Brasilia. Ao contrário do grande expoente
brasiliense da década de 80, os Raimundos não tinham pretensão de passar
mensagem para as pessoas e, ao contrario dos pagodeiros e sertanejos xexelentos
que dominavam as rádios na época, não tinham a pretensão de conquistar o
coração das meninas com poesia barata. A proposta deles era meramente de
diversão. É óbvio que a juventude adorou. Qual adolescente que não gosta de
encher os pulmões e gritar um palavrão do nada? Imagina você ter uma banda que te
dá liberdade de fazer isso durante um show inteiro...
A saída de Rodolfo fez com que o grupo perdesse parte dos seguidores |
E sejamos honestos. O que os
meninos cantavam não está muito distante daquilo que o Camisa de Vênus cantava
em músicas como “Silvia” e “My Way”, nem era tão cabeludo quanto algumas letras
do Velhas Virgens, que soltaria seu debut pouco tempo depois. O lance da maconha
parece ser símbolo daquela geração. 9 entre 10 bandas, tinham alguma musica que
falava de marijuana. Isso sem contar o Planet Hemp que praticamente construiu
sua carreira em cima do tema.
Digão foi o Tony Belotto dos anos
90. Era um guitarrista não mais do que mediano, mesmo assim 9 entre 10 jovens
queriam aprender seus riffs, seus solos e o tinham como ídolo. O impacto que
o titã causou nos anos 80, o rapaz
causou na década seguinte. Rodolfo nunca teve uma grande voz, mas era bem carismático.
Tinha boa presença de palco e tinha o publico na palma de suas mãos durante as
apresentações. A fórmula funcionava perfeitamente. Eram os caras certos para
aquele projeto.
A carreira deles foi recheada de
polêmicas. Desde o forrocore do debut, passando pela performance no programa da
Xuxa na época de Lavô Tá Novo, na
capa em que posaram de pagodeiros (Só no
Forevis) até chegar à versão de “20 e Poucos Anos”, hit de Fábio Jr.,
gravada para um programa da MTV que tinha o mesmo nome.
A polêmica capa de Só no Forévis |
Dessas, vale a pena explicar a
arte de Só no Forevis. Lembro até
hoje de quando estava andando na Galeria do Rock e vi dois rapazes comentando
em frente à uma vitrine. O primeiro mandou “Olha lá, o novo do Raimundos. Agora
eles estão cantando pagode”. O outro emendou “Putz, que pena. Era uma banda
legal”. Isso porque já tinha musica rolando nas rádios. Como podem ver, muita
gente não se dava ao trabalho de ouvir o CD por conta da arte escolhida para a
capa. Na verdade, era uma brincadeira. Era uma critica à invasão do gênero nas
rádios e na TV. Era como se eles dissessem “se precisamos posar de pagodeiros
para aparecer na TV, aqui estamos”. Demorou um pouco para que a galera
entendesse a jogada...
Demorou, mas funcionou. Várias faixas
invadiram as estações de rádio. “Me Lambe”, “Mulher de Fases”, “A Mais Pedida”... Os caras lotavam tudo quanto é show. As apresentações duravam 3 horas. Pareciam
imbatíveis. Tudo ia bem até que Rodolfo Abrantes resolveu abandonar o grupo,
declarando estar vivendo uma outra realidade e dizendo que queria se dedicar à religião. Quando ouvi isso pela primeira vez, achei que era gozação do cara.
Quando saquei que era verdade, imaginei o fim do conjunto.
Como disse anteriormente, ele era
extremamente carismático e os fãs o adoravam. Imaginava que seria difícil substituí-lo.
Não por técnica ou alcance. Longe disso. Por esse ângulo, seria fácil. O
problema era a identificação que o publico tinha com ele. O grupo optou por
colocar Digão nos vocais e trouxe um novo guitarrista, o ex-Peter Perfeito, Marquinhos. Foi bom por um lado, ruim por outro. Digão tem um timbre de voz
muito mais legal do que Rodolfo. Pelo menos, eu acho. Por outro lado, a mesma
identificação que a garotada tinha com Rodolfo correndo e pulando de um lado
para o outro, seus fãs tinham pelo Digão enquanto guitarrista. Lembra que eu
disse que a molecada ficava tentando aprender seus riffs e seus solos? Então...
Seus seguidores ficaram sem uma coisa, nem outra. As letras também perderam um
pouquinho da irreverência, do deboche, que era outra marca registrada dos
Raimundos.
Grupo planeja novo álbum de inéditas |
Os trabalhos lançados com Digão
nos vocais são bons discos (Kavookavala e O Embate do Século são
divertidíssimos), mas não tem aquele brilho de outrora. Durante esse tempo,
houve algumas mudanças na formação. Apenas Digão permaneceu em todas. Fiquei
sabendo que os rapazes finalmente estão preparando um CD de inéditas e que
pretendem lança-lo esse ano. Torço para que venham com um puta disco e
reconquistem seu espaço. Depois de tanto tempo de batalha sem abaixar a cabeça,
eles merecem!
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