domingo, 17 de agosto de 2014

Capital Inicial – Viva a Revolução (2014)





Por Davi Pascale

Capital Inicial está de volta. Dois anos após o lançamento de Saturno, o grupo de Brasilia solta novo EP. O disco é o oposto de seu antecessor. Se no álbum o anterior as guitarras ganharam volume nos remetendo à Atras dos Olhos e seu debut, aqui eles voltam à sonoridade pop rock com guitarras sem muita distorção e violões. O CD conta com as participações especiais de Thiago Castanho (Charlie Brown Jr) e do grupo de rap Cone Crew Diretoria.

Desde que retornaram às paradas de sucesso com o Acustico MTV que o grupo vem apostando cada vez mais nessa sonoridade (embora em alguns poucos trabalhos tenham fugido dessa temática como o projeto Aborto Elétrico). Embora muitos gostem de dizer que os rapazes se venderam, nesse caso, tenho um pezinho atrás. Discos como Todos Os Lados e até mesmo Eletricidade já tinham essa pegada mais pop com violões marcando presença. Portanto, não dá para dizer que foram por um caminho inimaginável. O único trabalho que não consegui entender onde eles quiseram chegar foi o Das Kapital, que me soou pasteurizado demais.

Com crise da indústria fonográfica, garotos apostando cada vez mais em downloads e espaços cada vez mais reduzidos para divulgação de novo material, os músicos optaram por fazer um esquema que vários artistas mais populares vem apostando. Criar um EP e colocá-lo no mercado ao valor de R$9,90. Artistas como Paula Fernandes, Roberto Carlos, Roupa Nova e Zezé Di Camargo & Luciano já apostaram nesse caminho. Na cena rock, acredito que sejam os pioneiros. Pelo menos no rock mainstream. Pode ser um caminho interessante...

Novo trabalho é marcado por sonoridade mais calma e letras críticas

O disco começa bem com “Melhor do Que Ontem”. Ótima faixa pop rock com violões falando alto e boa linha vocal. Na sequencia, “Tarde Demais”. Não, não é a faixa que fez sucesso na voz do Zezé Di Camargo anos atrás. Um pouco mais rock do que a anterior, marcada por seu baixo pulsante, a letra fala sobre o sentimento de incapacidade diante da situação atual do país. “A violência na televisão. Explode, me tira do ar”, “Minha rua mudou de sentido, virou contramão”, “Eu queria estar em outro lugar. Quem sou eu? Quem somos nós?” são alguns dos versos que nos ajudam a compreender onde o cantor quis chegar.

As letras de cunho político talvez sejam o momento de maior aproximação com o trabalho de 2012. Se bem que o Capital sempre carregou esse tipo de abordagem em seus discos (Quem não se recorda de Dinho gritando “vou denunciar autoridades incompetentes”, no longínquo ano de 1987?) e até mesmo em seus shows não faltam seus discursos de protesto (onde ele bate o famoso recorde de falar ‘cara’). A faixa seguinte, que dá nome ao álbum, vai ainda mais a fundo. A letra fala sobre as manifestações. “Eu vi um menino jogado no chão sem dignidade, sem educação. Tem copa do mundo, manipulação, vendendo mentiras na televisão. E o que você vai fazer? Vai ficar esperando sentado ou vai sair pra rua? Vamos todos pra rua...” Nessa faixa, temos a participação da Cone Crew Diretoria. Até entendo que o rap é um estilo que tem bastante letras politizadas, acho que tem a ver a participação. Por outro lado, achei que a versão sem eles ficou mais bacana. Teria utilizado a versão deles como faixa bônus e não o inverso.

Esse ar de insatisfação com a realidade em que estamos vivendo se mantém nas faixas seguintes. “Cabeça quente, sangue frio (...) Vejo fogo e fumaça. Se divertem, não acho graça”, canta Dinho Ouro Preto em “Não Tenho Nome”. Na agitada “Bom Dia Mundo Cruel”, mais críticas “Eu olho para o lado, somos pobres mortais, como notas amassadas de três reais”. Como podem notar, se não há peso na sonoridade da guitarra, o mesmo não podemos dizer das letras. Há quem critique a habilidade do cantor enquanto letrista. Eu, por outro lado, gosto do jeito que escreve. Bem colocado, direto, com algo a dizer. Simples, sim, porém, bem escrito. O CD se encerra com “Coração Vazio”, uma balada que conta com violões, vocais e nada mais. Mais Capital, impossível. Embora não seja um trabalho pesado, é um álbum bem bacana. Bem gravado, bem tocado e com ótimas canções. Se você curte a banda, pode comprar sem medo. Ótimo álbum!

Nota: 7,5 / 10,0
Status: Pop/rock de qualidade

Faixas:
      01)   Melhor Do Que Ontem
      02)   Tarde Demais
      03)   Viva a Revolução (c/ Cone Crew Diretoria)
      04)   Não Tenho Nome
      05)   Bom Dia Mundo Cruel
      06)   Coração Vazio (c/ Thiago Castanho)
      07)   Viva a Revolução (Bonus Track)

sábado, 16 de agosto de 2014

Música Comentada: Bullet for My Valentine – A Place Where You Belong

Por Rafael Menegueti

Os galeses do Bullet for My Valentine sempre tiveram como uma de suas características fazer metalcore com letras mais emocionais e com temas pessoais. Muitas dessas composições são inspiradas em situações que podem ocorrer na vida de qualquer um. “A Place Where You Belong” é um exemplo dessas canções. A faixa presente no terceiro álbum do grupo se trata de uma declaração desesperada de alguém que acaba de ver a pessoa que mais amava cometer suicídio.


Melancólica e com uma certa tensão em sua letra, a música começa mostrando o choque de realidade na vida do narrador:

Your body's cold
Hope is lost
I can't let go
Can I die with you so we can never grow old?
Cut the ties
With this note you left behind
As I read the word I hear you telling me why
Seu corpo está frio
A esperança se foi
Eu não posso deixar passar
Posso morrer com você assim nunca envelheceremos?
Corto os laços
Com este bilhete que você deixou
Enquanto leio as palavras eu escuto você me dizendo porque

A depressão ao ver que tudo estava perdido é inevitável, e a partir dali ele passaria a viver em um inferno particular

Too late, too late
I never said goodbye
Too late, too late
Can't even ask you why
Now I'm wasting
Away in my own misery
I hope you're finally gone
To a place where you belong
Muito tarde, muito tarde
Eu nem pude dizer adeus
Muito tarde, muito tarde
Nem pude perguntar porque
E agora estou me perdendo
Em minha própria angústia
Espero que você tenha finalmente ido
Ao lugar a qual você pertença

Apesar do desejo de que sua amada esteja melhor após sua partida, o narrador não esconde que sua ausência é o motivo de sua depressão, e ele passa a desejar ter o mesmo destino.

My sadness shows
As your name is carved in stone
Can't erase the words so the reality grows
I wish I died
On that night by your side
So just kill me now and let the good times roll
Minha tristeza mostra
Enquanto seu nome é cravado em pedra
Não posso apaga-las, e a realidade aumenta
Eu queria ter morrido
Naquele noite ao seu lado
Então apenas me mate agora e deixe os bons tempos virem

Por fim, ele faz um apelo, pare que ela o espere, e que o receba. No momento de clímax da música, Matt Tuck canta como se aquele sentimento de desamparo fosse definitivo. O sentimento é quase tangível tamanho é o emprego da melancolia em sua voz quando ele diz “eu não pertenço aqui” (Here I don’t belong)

Will you wait for me?
Will I see you on the other side?
You won't have to wait too long.
Will you come for me?
Will you take me to the other side?
Cause here I don't belong
Você vai me esperar?
Irei vê-la do outro lado?
Você não terá de esperar muito
Você virá até mim?
Você ira me levar ao outro lado?
Porque eu não pertenço aqui


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

The Dissociatives – The Dissociatives (2004)

Por Rafael Menegueti

The Dissociatives
No começo da semana eu falei sobre o Tambalane, projeto paralelo do baterista do Silverchair, Ben Gillies. Hoje eu falarei sobre outro projeto paralelo de um membro do Silverchair, o vocalista e guitarrista Daniel Johns, lançado pouco antes do Tambalane. Trata-se do The Dissociatives, banda que lançou um CD e um DVD ao vivo, e que chegou a fazer bastante sucesso na Austrália, e chegou a atingir a Europa.

O grupo era liderado por Daniel Johns, que junto ao músico Paul Mac, que trabalhou em inúmeras oportunidades com Daniel no Silverchair. Juntos, a dupla buscou criar uma mistura de música eletrônica e pop rock, cheia de elementos bem diferentes do que estaríamos acostumados a ouvir de Daniel em suas composições para o trio australiano.

O processo de surgimento do Dissociatives não foi repentino. Antes, Daniel e Paul já haviam firmado parceria no EP “I Can’t Believe It’s Not Rock”, de 2000. Nele, a dupla cria um rock meio industrial, meio punk com interferência de teclados e sintetizadores por todos os cantos. O Dissociatives levou essa idéia alem. Menos punk, com guitarras mais leves, Johns e Mac buscam uma sonoridade mais radiofônica e com melodias pegajosas e carismáticas.

Cena do clipe de "Somewhere Down the Barrel"
O disco tem toques característicos do que Daniel viria a trazer para o próprio Silverchair no futuro. Uma experimentação sonora que vai alem do que o rock costuma trazer. “We’re Much Preferred Costumers” abre com uma batida eletrônica que dita o ritmo da melodia criada pela voz e pela guitarra de Daniel. Uma faixa que abre espaço para “Somewhere Down The Barrel”, empolgante canção que foi o primeiro single da banda.

“Horror With Eyeballs” possui um dos melhores arranjos do disco, cheio de elementos sonoros que deixam o som ainda mais inusitado. A instrumental “Lifting the Veil From  the Braille” é carregada por um assovio, ao lado da melodia da faixa. “Thinking In Reverse” é mais agitada, lembra algo que o Devo poderia ter lançado nos anos 80. “Forever and a Day” faz a linha baladinha. “Young Man, Old Man” é bem suave e parece ser carregada por um arranjo mais acústico, alem de contar com um coro e um refrão bem cativante. Uma das melhores do disco é “Aaängry Megaphone Man”, com arranjos bem trabalhados e uma melodia empolgante, a faixa cresce nos nossos ouvidos e vai progredindo bem para o final. Apenas o encerramento, com “Sleep Well Tonight”, parece destoar um pouco da proposta do disco. A faixa é lenta e parece mais uma cantiga de ninar pela entonação e melodia que Johns usa para cantar. Mas a julgar pelo nome, talvez fosse justamente essa a intenção.

Ao todo, o The Dissociatives não fez uma obra revolucionaria, que inovou ou criou uma nova idéia de pop rock alternativo. Fizeram apenas um disco divertido e bem despretensioso. Johns e Mac possuem uma boa sintonia e se entendem para fazer música. O disco de 2004 é uma bela mostra dessa parceria. Pena que ficou nisso. Eles até chegaram a ensaiar que poderiam lançar um segundo disco, mas isso nunca se concretizou. Até é possível, com o hiato do Silverchair, já que Daniel Johns anda meio paradão, nem seu disco solo chegou a se concretizar ainda. Quem sabe a parceria volta.

Nota: 8/10
Status: Curioso

Faixas:
"We're Much Preferred Customers" – 5:46
"Somewhere Down the Barrel" – 4:39
"Horror with Eyeballs" – 4:45
"Lifting the Veil from the Braille" – 4:18
"Forever and a Day" – 4:49
"Thinking in Reverse" – 3:41
"Paris Circa 2007slash08" – 3:52
"Young Man, Old Man (You Ain't Better Than the Rest)" – 4:31
"Aaängry Megaphone Man" – 4:52
"Sleep Well Tonight" – 2:29


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Europe – Live At Sweden Rock: 30th Anniversary Show (2013)





Por Davi Pascale

A banda sueca Europe completou 30 anos de estrada. E, para celebrar, resolveram colocar no mercado um CD e DVD ao vivo com uma apresentação realizada no Sweden Rock Festival, o maior festival música de seu país. Por mais de duas horas, os músicos fazem uma apresentação pesada e contagiante.

Esqueça daquele Europe que invadiu as rádios nos anos 80 com uma sonoridade hard pop à la Bon Jovi. Para dizer a verdade, eu gosto muito daquela fase, mas o grupo está cada vez mais distante dessa sonoridade. Os teclados diminuíram, o peso da guitarra subiu, o alcance vocal desceu (esse, provavelmente, por conta da idade). Quem tem acompanhado o grupo desde que retornaram com o (ótimo) Start From The Dark, sabe que a proposta do grupo hoje é outra.

Esse não é um trabalho criado a partir da releitura de velhos hits. Vários deles, inclusive, ficaram de fora como “Cherokee”, “I´ll Cry For You”, “Dance The Night Away” (não confundir com a do Van Halen)... A jogada deles foi pegar canções dos seus álbuns mais recentes e misturar as canções antigas que mais se aproximavam da proposta. O set é bem dosado. Dos 5 primeiros discos, entraram 3 músicas por álbum...  Entretanto, daquelas com uma pegada mais comercial, marcam presença somente as que não têm como negar. E, pelo visto, isso não irá mudar.

Quando escrevia para a revista RockLife tive a oportunidade de bater um papo com o baterista Ian Haughland por telefone, quando eles estavam no estúdio gravando o que viria a ser o Secret Society, e ele me confidenciou que os músicos não morrem de amores pelo material dessa época mais popular. Que eles tocam algumas músicas em respeito aos fãs, mas que aquele não era exatamente o som que queriam fazer. Que ele considera o trabalho atual mais honesto. Portanto, é bom irem se acostumando com a ideia...


Apresentação foi gravada diante de uma enorme plateia no Sweden Rock Festival

Em relação à técnica, não dá para questiona-los. Essa é uma daquelas bandas que a galera tendia a tirar sarro quando olhavam para o visual ou ouviam as baladas mais melosas nas rádios, mas calavam a boca quando viam o grupo em ação. Os músicos sempre foram extremamente competentes e seus guitarristas (primeiro John Norum, depois Kee Marcelo) sempre foram extremamente respeitados. Aliás, considero John Norum um dos grandes músicos da sua geração, lado a lado com nomes de peso como George Lynch, Warren De Martini, Jake E Lee, Reb Beach (que embora atualmente seja guitarrista secundário no Whitesnake, fez trabalhos simplesmente fantásticos ao lado do Winger). E é justamente ele quem está no posto hoje. A banda conta com sua formação clássica. Joey Tempest não tem mais aquele alcance que estávamos acostumados a ver nos VHS´s lançados durante a tour do Final Countdown, mas ainda faz bonito. E Ian está cada vez mais preciso...

A apresentação traz duas participações super especiais. O guitarrista Scott Gorham do Thin Lizzy relembrando o clássico “Jailbreak” (não é a do AC/DC, é a do Thin Lizzy mesmo) e o também guitarrista Michael Schenker relembrando seus tempos de Ufo com “Lights Out”. Outros dois grandes músicos, por sinal.

Embora tenha faltado algumas músicas que gostaria de ouvir, o resultado é bem bacana. Talvez os fãs mais antigos fiquem um pouco com indignados com a mudança de direção musical dos rapazes, mas não dá para negar a qualidade musical dos mesmos, nem dá para dizer que o show deixe a desejar, longe disso. Até porque os discos que eles têm apresentado, tem sido bem legais. Várias canções bem bacanas desses trabalhos são apresentadas aqui, podendo servir de referência para quem está por fora do trabalho atual do grupo. Da nova fase, destacaria “Not Supposed to Sing The Blues”, “The Beast”, “New Love In Town’ e “Last Look at Eden”. Das classiconas, fico com “Let The Good Times Rock”, “Superstitious”, “Wings of Tomorrow” e “Open Your Heart” (que ganhou uma versão acústica bem interessante). Grande apresentação de uma grande banda!

Nota: 08 / 10
Status: Divertido

Faixas:

CD 01:
      01)   Riches to Rags
      02)   Firebox
      03)   Not Supposed to Sing The Blues
      04)   Scream of Anger
      05)   Superstitious
      06)   Not Stone Unturned
      07)   New Love In Town
      08)   In The Future to Come
      09)   Paradize Bay
      10)   Girl From Lebanon
      11)   Prisoners in Paradise
      12)   Always The Pretenders
      13)   Drink and Smile
      14)   Open Your Heart
      15)   Love Is Not The Enemy
      16)   Sign of the Times

CD 02:
      01)   Start From The Dark
      02)   Wings of Tomorrow
      03)   Carrie
      04)   Jailbreak (c/ Scott Gorham)
      05)   Seven Doors Hotel
      06)   Drum Solo
      07)   The Beast
      08)   Let The Good Times Rock
      09)   Lights Out (c/ Michael Schenker)
      10)   Rock The Night
      11)   Last Look At Eden
      12)   The Final Countdown