sexta-feira, 15 de maio de 2015

Sonata Arctica e a saga “Caleb”

Por Rafael Menegueti

Sonata Arctica
Os finlandeses do Sonata Arctica são conhecidos por suas músicas com temáticas recheadas de historias e personagens marcantes. Uma das melhores historias criadas pelo vocalista Tony Kakko envolve não uma, mas quatro músicas, lançadas em discos diferentes envolvendo um personagem perturbador e com características um tanto psicóticas, numa trágica historia de paixão impossível. São elas: “The End of This Chapter” (“Silence”, de 2001), “Don’t Say A Word” (“Reckoning Night”, de 2004), “Caleb” (“Unia”, de 2007) e “Juliet” (“The Days of Greys”, de 2009), que juntas formam a sequencia conhecida pelos fãs como a “saga de Caleb”

Cada uma das músicas é um capitulo da historia do personagem Caleb, e sua paixão doentia por uma mulher, Juliet. A exceção de “Caleb”, faixa que conta a infância e origem do personagem principal. A forma como Tony tratou de compor as canções é bem interessante por se assemelhar a uma discussão do personagem principal com sua amada, sendo “Caleb” a única cantada em terceira pessoa. O uso de metáforas e referências a obras como “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, por exemplo, tornam as faixas ainda mais convidativas. Decifrar a letra das canções exige uma certa atenção devido a essas inúmeras figuras de linguagem e referencias. Alem de que é preciso imaginar as cenas com sua cabeça pra compreender e interpretar o que se passa. Então aqui vai minha interpretação da saga:

End of This Chapter


A primeira parte da historia começa com uma ligação telefônica. Caleb e Juliet formavam um casal, mas a obsessão dele por ela fez com que ela o deixasse. Ele foi impedido de se aproximar dela novamente, mas depois de um tempo ele consegue encontrá-la. E passa a perseguir a moça. Após a perturbadora ligação ele lamenta a forma como as coisas acabaram entre eles, e passa a tramar a sua volta. Mas ele faz com calma, de forma fria, porque apesar de tudo, ele é um romântico...

Don’t Say A Word


Se na primeira parte Caleb está apenas observando e analisando o que irá fazer, em “Don’t Say A Word” ele parte pra ação. E de forma agressiva. Caleb invade a casa de Juliet, a prende e começa e despejar toda a sua indignação com a amada. Relembra um pacto, de que eles jamais se separariam. Algo que ela quebrou. Ele expõe toda a sua loucura (“Eu vejo um louco no espelho quando estou fraco”) e diz que Juliet é a causa dela. Ele quer ouvi-la dizer que o ama, mesmo que seja mentira (“Eu sei que você mente”) Então ele propõe uma solução, que ele retirou de um livro (Romeu e Julieta?), e promete a ela que ela verá o fim antes do amanhecer...

Caleb


Antes de mostrar o final da historia, Tony decidiu mostrar quem é Caleb mais a fundo. Para isso, foi a vez de explicar sua infância conturbada. A faixa que leva o nome do personagem traz uma introdução com uma locução que faz referencia às outras partes da historia (“você deve conhecer sua tragédia, os últimos anos, de cor”). A música conta de uma família problemática. Seus pais não se entendiam, e a mãe envenenava o filho contra o pai. Tanto que ele não se ressentiu com sua morte (“Sorria no seu funeral, ‘estou feliz que você esteja morto’”). Enquanto crescia, no entanto, as coisas não melhoravam, e a dureza de sua mãe serviu para criar um adulto cheio de problemas. No fim, Caleb acaba virando um assassino, impiedoso e que tem uma visão perturbada da vida e morte, reforçada pelos versos “as flores secas são tão belas, e isso se aplica a todas as coisas vivas e mortas”.

Juliet


Talvez tenha sido exatamente por causa da referência ao livro de Shakespeare que Tony Kakko tenha decidido chamar a amada de Caleb de Juliet, como é revelado no nome da última canção. Como havia ficado no ar em “Don’t Say A Word”, Caleb tinha uma solução pra seu impasse com Juliet. Os dois beberiam veneno e morreriam juntos. Mas algo deu errado. De algum modo, Juliet engana Caleb e vira o jogo. Ele acaba bebendo o veneno sozinho, e tudo começa a desmoronar. Enquanto o homem continua a expor sua indignação com ela, ele percebe que é tarde demais para se arrepender, pois o caminho tomado não tinha volta. E se da conta de que ela o fez de tolo o tempo todo, pois manipulou ele a acreditar que ela concordaria com a sua loucura final. Em suas ultimas palavras ele então decidi deixar claro que tudo que fez até então, foi por seu amor. “Eu vivi apenas por você (...), minha razão para morrer, não há vida sem você”, declara enquanto sente que não há mais amor correspondido. Ela é a ultima coisa que ele vê, antes de tudo se acabar e ela fechar seus olhos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Noticias do Rock (Pra Não Ficar Por fora)

Fique por dentro de tudo que está rolando na cena nacional e internacional. As polêmicas, os lançamentos, os mimimis. Trazemos os principais fatos para vocês. Confiram! 

Por Davi Pascale


Rolling Stones reedita álbum clássico



O clássico Sticky Fingers ganha nova edição. O álbum, lançado originalmente em 1971, retornará às lojas no dia 8 de Junho com material bônus contendo versões alternativas e músicas inéditas da época. O disco, contendo a famosa capa do zíper, contém clássicos como “Brown Sugar”, “Wild Horses”, “Sister Morphine”, “Dead Flowers” e retornará ao mercado em 7 novas edições.


Disco do Metallica está longe de ficar pronto



Essa semana, o Lars Ulrich jogou um balde de água fria na cabeça dos fãs. Depois do depoimento de Kirk Hammet dizendo que havia criado mais de 250 riffs e dando a entender que o projeto estava avançado, o baterista respondeu em uma entrevista à rádio, de Los Angeles, ALT98.7: “Comparando com a idade da Terra e o tempo que o homem a habita, diria que está bem próximo”. O músico foi mais além na brincadeira, “Não ficaria prendendo o ar, nem evitando ir ao banheiro, mas está à caminho”. Tendo em vista que Death Magnetic foi lançado em 2008, podemos nos orgulhar de dizer que temos um novo Chinese Democracy à caminho. Na torcida para que a espera valha a pena.


Novo documentário ameaçando Courtney Love



Parece que essa mulher nunca terá paz. Depois do infame Kurt & Courtney, agora é a vez de Soaked In Bleach. Dirigido por Benjamim Statler, o documentário será lançado dia 11 de Junho e pretende comprovar que Kurt Cobain foi assassinado e que Courtney Love estava envolvida no caso. Parece que a líder do Hole terá que reviver todo aquele pesadelo (acusações, perguntas por todo lado, comentar assuntos delicados que julgava enterrado). Boa sorte, Courtney!


Queensryche confirma novo álbum



Pelo menos um grupo acertou sua situação. Agora não existem mais dois Queensryche, já que Geoff Tate perdeu o direito do nome. A versão de Todd La Torre soltará um novo álbum de inéditas em breve. Em entrevista à publicação Pop Culture Madness, o guitarrista Michael Wilton declarou: “Nós começamos a gravá-lo durante a turnê e está quase pronto. Uma boa parte do material remete aos (nossos) 6 primeiros discos. Temos mais de uma hora de gravação com material realmente bom”. Torcendo para que isso seja verdade, já que o anterior não me emocionou muito, não.


Edu Falaschi ganha CD tributo




A MS Metal Records confirmou a realização de um CD tributo ao vocalista Edu Falaschi. Segundo Anderson Faria, um dos idealizadores do projeto: “Esta homenagem é mais do que merecida, pois é um dos músicos mais representativos da cena. Estamos muito felizes porque todos os artistas que convidamos, aceitaram na hora". O disco celebrará os 25 anos de carreira do rapaz que já esteve à frente de grupos como Mitrium, Symbols, Angra e se encontra atualmente com o Almah. Nando Fernandes é o primeiro nome confirmado do projeto. Sem brincadeiras, nem provocações, gostaria de ver o Andre Matos participando do tributo. Seria bacana ver esse, que é considerado o grande nome do país, gravando uma versão e botando um fim na disputa infame que dura anos.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Sammy Hagar & Vic Johnson – Lite Roast (2014):



Por Davi Pascale

Sammy Hagar lança trabalho acústico. No repertório, misturam-se canções de sua (ótima) carreira-solo com hits do Van Halen. Trabalho é bem agradável e possui uma pegada intimista.

A idéia nasceu por acaso. O red rocker fez uma apresentação na primeira edição do Acoustic-For- A-Cure em San Francisco (California), em 15 de Maio de 2014. Trata-se de um evento beneficente para arrecadar dinheiro para crianças que sofrem de câncer. A idéia do evento é receber artistas para jams e sets acústicos. E o ex-cantor do Van Halen apareceu por lá para fazer um set violão/voz. E é exatamente isso que temos aqui.

Não se trata daqueles acústicos mega-produzidos com inúmeras percussões, teclados, violinos. Apenas voz e violão. Para dar uma pequena encorpada no som, Sammy trouxe o guitarrista de sua banda Waboritas, Vic Johnson. Algumas músicas contam com um sutil backing de Vic, mas o ponto alto é realmente o trabalho vocal de Hagar. Para não dizer que não há nada, há um acordeon em duas faixas: “Red Voodoo” e “Halfway to Memphis”. E só.

Os fãs do Van Halen adoram ficar discutindo sobre quem foi o melhor cantor da banda. Obviamente, entra o fator gosto nesse tipo de discussão. Ambos possuem estilo de cantar diferenciado e a banda criou uma nova sonoridade com a entrada de Sammy. Mas, não há duvidas, para aqueles que possuem um ouvido um pouquinho mais apurado, de que Sammy Hagar sempre teve um alcance vocal maior e maior domínio de sua voz. Sempre foi mais cantor. Sou um puta fã de Dave Lee Roth também, mas é como discutir quem canta mais: Ozzy ou Dio.

Lite Roast apresenta sonoridade mais intimista

E em um álbum como esse, isso conta a seu favor. Se em trabalhos mais produzidinhos, contando com o apoio de uma banda por trás, como esses realizados em apoio com a MTV, a voz já fica em maior evidência, imagina em um projeto desses. Se o cara não souber cantar, paga mico. Ainda mais que o músico optou por entregar um projeto 100% honesto. Realizou o disco sem nenhum tipo de overdub. O cara fez à moda antiga, sentou-se com o violão de frente à um microfone e mandou ver, assim como Bob Dylan fazia em seus primeiros álbuns.E o resultado está aqui. E, antes que me perguntem, sim, sua voz continua boa.

O CD tem um ar intimista. É como se você estivesse ouvindo os rapazes fazendo um som na sala de sua casa ou em uma roda de amigos. Não há solos trincados, milhares de vocais. É o som nu e cru, evidenciando a melodia das canções. O foco principal é a segunda fase de sua carreira-solo. Ou seja, de Marching to Mars em diante. Dentre essas, vale destacar “One Sip” que ganhou uma pegada mais arrastada, evidenciando ainda mais a influência country da canção. “The Love” ganha uma nova cara. A música que era um rock festivo, ganha um clima de balada rocker e funciona bem. “Who Has The Right” não tem mais aquele vocal gritado, mas o novo arranjo casou bem no projeto.

Nem todas as músicas sofreram mudanças drásticas. “Red Voodoo” e “Eagles Fly” (a única da primeira fase de sua carreira-solo), continuam bem próximas às originais. Dos seus tempos de Van Halen, trouxe os hits “Finish What Ya Started” e “Dreams”. As versões têm dividido a opinião de seus admiradores, mas gostei do resultado final. Esse não é aquele álbum para ficar estudando detalhes. É aquele trabalho para deixar rolando enquanto faz um churras com os amigos, enquanto toma um café antes de sair de casa... Se você curte esse tipo de ambiente, é uma audição divertida. Caso contrário, espere por seu próximo álbum, The Circle, que chegará às lojas na próxima semana.

Nota: 7,5 / 10,0
Status: Intimista/Descontraído

Faixas:
      01)   Red Voodoo
      02)   One Sip
      03)   Finish What You Started
      04)   Eagles Fly
      05)   The Love
      06)   Father Sun
      07)   Dreams
      08)   Deeper Kinda Love
      09)   Who Has The Right?
      10)   Sailin´ 
      11)   Halfway to Memphis

terça-feira, 12 de maio de 2015

Sirenia – The Seventh Life Path (2015)

Por Rafael Menegueti

Sirenia - The Seventh Life Path
Desde que Morten Veland fundou o Sirenia após se desligar do Tristania, a quase quinze anos, ele vem tentando encontrar a fórmula perfeita para os seus discos. Foram quatro vozes femininas diferentes nos primeiros trabalhos até encontrar Ailyn e enfim conseguir moldar aquilo que os fãs encaram como a melhor fase da banda desde a sua concepção. Após muitas mudanças, o Sirenia chega a seu sétimo disco de estúdio finalmente com o que parece uma formação consolidada. E curiosamente o disco se chama “The Seventh Life Path”.

O modo de trabalhar de Morten segue o mesmo. Ele grava praticamente todos os instrumentos e divide os vocais com Ailyn. O guitarrista Jan Erik Soltvedt e o baterista Jonathan A. Perez seguem como parte da banda, mas ao vivo (eles não usam baixista nem tecladista nos shows). No entanto, é notável como nos dois últimos trabalhos a banda buscou trazer de volta a atmosfera sombria e pesada do gothic metal do princípio da banda, as aliando ainda com a melodia que fez parte da sonoridade do grupo em determinado momento. “Perils of the Deep Blue” já havia surpreendido ao ser bem mais inspirado que o bom, mas monótono e constante, “The Enigma of Life”. Em “The Seventh Life Path” a banda parece ter dado um passo a mais nesse sentido.

A atual formação do Sirenia
Essa atmosfera que torna o som da banda mais encorpado é criada com muitos arranjos de teclados e sintetizadores, corais, guitarras e bateria pesadas e, claro, a boa mistura de vocais guturais com a leveza e beleza da voz de Ailyn. A partir da introdução com a faixa "Seti", que é uma simples composição com corais, teclado e arranjos sinfônicos, o disco exibe uma sequência de faixas que resgatam a força das composições que Morten sempre exibiu. “Serpent” é uma ótima mostra do que está por vir, com guitarras potentes e vocais fortes. O single “Once My Light” oferece uma incrível atmosfera progressiva, ao mesmo tempo que Elixir parece uma composição que poderia ter se encaixado perfeitamente no primeiro disco da banda, “At Sixes and Sevens”.

A faixa mais longa do disco, e também uma das melhores, “Sons of the North” tem uma melodia que em momentos é impulsionada pelos teclados bem inseridos, e em outros pela combinação do peso das guitarras e guturais. “Earendel” é um pouco mais melódica, enquanto “Concealed Disdain” é mais acelerada e progressiva, com um ar meio tenebroso em certos momentos. “Insania” é outra composição forte do disco, e a levada de guitarra é o ponto forte de “Contemptuous Quitius”. “Silver Eye” tem um aspecto bem nórdico, algo bem típico do metal norueguês. O disco encerra com “Tragedienne”, que, como o nome pode indicar, traz de fato uma certa melancolia em sua levada suave, que torna a faixa uma balada muito bem elaborada. Essa mesma faixa ganhou também uma versão em espanhol, “Tragica”, que aparece como bônus.

No que diz respeito a performance dos músicos, me arrisco a dizer que aqui eles apresentam a melhor forma juntos. Morten Veland parece tão inspirado e capacitado criativamente quanto nos primeiros anos de sua carreira. Ailyn Gimenez entregou a melhor aparição dela em disco desde sua entrada na banda, consolidada e fazendo um belo trabalho com sua voz suave e diferenciada. Para aqueles que achavam que o Sirenia não tinha mais nada a oferecer, “The Seventh Life Path” é um disco que prova o contrário. Um dos melhores da carreira do grupo de gothic metal norueguês.


Nota: 9,5/10
Status: Sombrio

Faixas:
1. Seti
2. Serpent
3. Once my Light
4. Elixir
5. Sons of the North
6. Earende
7. Concealed Disdain
8. Insania
9. Contemptuous Quitius
10. The Silver Eye
11. Tragedienne
12. Tragica (Tragedienne spanish version - Bonus Track)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Little Quail And The Mad Birds – Little Quail And The Mad Birds (2015):



Por Davi Pascale

Demo do Little Quail And The Mad Birds é resgatada e prensada em vinil. Material apresenta boa sonoridade e performance enérgica.

Talvez vocês não se lembrem quem foi o Little Quail. Bem, vamos lá... No início dos anos 90, surgiu uma nova leva de bandas de rock. Uma boa parte desses grupos pertenciam à selos independentes que utilizavam as gravadoras grandes para distribuição. Os mais populares eram o Banguela (atrelado à Warner), o Superdemo/Chaos (ligado à Sony) e o Rock It! Às vezes resgatavam alguns astros esquecidos, mas a maior parte eram novas apostas mesmo. Little Quail And The Mad Birds foi uma das apostas do selo Banguela, famoso por ter lançado os Raimundos.

Os Raimundos se tornaram o grande nome daquela geração, mas poucas dessas apostas conseguiram furar o bloqueio e chegar ao grande público. Outra exceção foi o Planet Hemp de Marcelo D2 que foi uma das apostas do Superchaos. Little Quail bateu na trave. Conseguiram colocar alguns clipes na programação da MTV, conseguiram alguma execução nas rádios, mas nunca tiveram um sucesso massivo. Quem assistia a MTV na época certamente lembra-se do clipe “Familia Que Briga Unida, Permanece Unida”, mas nunca conseguiram uma venda de expressão. Gabriel Thomaz conseguiu emplacar uma música nas rádios, mas na voz dos Raimundos. Lembra de “I Saw You Saying”, a tal música da Madonna? Então, era dele. Os Raimundos até tentaram dar uma força. Citavam o Little Quail nas entrevistas, colocaram Gabriel para cantar junto com eles no Monsters of Rock, mas não decolou.

Talvez o primeiro álbum tenha assustado. Lírou Queiol En De Méd Bârds, lançado em 1993, era exageradamente cru ou, talvez, exageradamente honesto. Pegaram fama de grupo tosco. O pessoal que ouvia rádio não estava acostumado com essa sonoridade mais crua, de garagem. A partir daí, vários torciam o nariz somente de ouvir falar o nome dos rapazes. Seu trabalho seguinte, A Primeira Vez que Voce Me Beijou, já veio com uma produção superior. Melhor tocado, melhor gravado, melhor arranjado, mesmo assim, não decolou. Hoje, o grupo se tornou cult por conta de 2 dos 3 músicos do conjunto terem criado nome na cena brasileira. Gabriel Thomaz ganhou respeito com o Autoramas, enquanto Bacalhau consegue seu ganha-pão excursionando com o Ultraje a Rigor, depois de ter tido um breve sucesso com o Rumbora no final da década de 90.

Compacto resgata demo do segundo disco

O que temos aqui é justamente a banda tocando ao vivo dentro do estúdio. Gravado originalmente em fita cassete com uma mesa de 4 canais, os meninos começavam a rascunhar o que viria a ser o seu segundo trabalho. Ainda não tinha a produção que o álbum viria a ter. As bandas grandes costumam ter bastante tempo nos estúdios para criação, mas lembre-se que esse não era o caso deles. Pelo contrário, na contracapa Gabriel comenta que eles gravavam o material nas horas vagas do estúdio. As letras continuavam com a irreverência costumeira, mas a banda se mostrava melhor entrosada.

As melhores músicas são as divertidas “A Alegria Está Contagiando Meu Coração” e “Mau Mau”. Coincidentemente as 2 primeiras músicas do tal trabalho. A gravação demonstrava que o grupo continuava fiel às suas origens. Os arranjos estavam um pouco mais elaborados, mas a essência era a mesma. Bacalhau era o grande destaque espancando a bateria sem dó. “Elvis Não” já demonstrava a influência de surf music nas guitarras de Gabriel, que viria a se tornar uma marca dos Autoramas, enquanto a (fraca) “Problem Girl” deixava nítido a influencia de punk rock em seu trabalho. O compactinho se encerra com uma vinheta engraçadinha que leva o nome de “A”.

Embora tenha sido registrado em condições precárias, o material traz uma boa sonoridade. Se você está cansado de ouvir grupos plastificados, essa pode ser uma boa opção.

Nota: 7,5 / 10,0
Status: Honesto e nostálgico

Faixas:
      01)   A Alegria Está Contagiando o Meu Coração
      02)   Problem Girl
      03)   Mau Mau
      04)   Elvis Não
      05)   A

domingo, 10 de maio de 2015

Kurt Cobain: Montage of Heck (2015)

Por Rafael Menegueti

Kurt Cobain: Montage of Heck
Foi exibido no ultimo dia 04 de maio na TV norte-americana o aguardado documentário “Kurt Cobain: Montage of Heck”, do diretor Brett Morgen, que conta a historia do músico mais importante dos anos 90. O filme de pouco mais de 2 horas contou com a produção-executiva de Frances Bean, filha do cantor, e traça um retrato da vida de Kurt de uma maneira única e extremamente íntima.

São inúmeras as obras que já buscaram mostrar e contar a historia de Kurt. A filmografia e bibliografia, tanto de obras autorizadas quanto não, é imensa de material que possui diferentes ângulos e objetivos ao tratar da vida e obra do músico de Aberdeen. No entanto, nenhum desses trabalhos até hoje foi tão fundo na busca de mostrar detalhes antes nunca vistos a respeito do músico. Mas creio que o mais importante a ressaltar seja o fato de o filme não ser exatamente uma biografia, mas um perfil detalhado de sua vida, e que parece tentar retratar com riqueza de detalhes sua cabeça e alma.

Filme possui imagens inéditas de Kurt em diversas fases de sua vida
Através de entrevistas com algumas das pessoas mais próximas na vida do cantor (seus pais Wendy e Don, sua irmã Kim, o amigo e baixista do Nirvana Krist Novoselic, sua primeira namorada Tracy Marander e, principalmente, Courtney Love), trechos de suas músicas, vídeos caseiros, desenhos e rascunhos feitos pelo cantor, arquivos de áudio e animações criadas especialmente para o documentário, o filme cria uma colagem que mergulha no universo de Kurt, de modo a nos mostrar muito de sua intimidade em diversos momentos de sua vida.

Uma das coisas que torna esse filme único é o fato de ele não buscar reafirmar aquilo que todos nós já sabemos sobre Kurt, e que já foi mostrado em tantas outras obras como eu já citei. Ao invés disso ele explora elementos nunca antes vistos e os relaciona aos fatos e acontecimentos que rodearam a vida do cantor. Esqueça todo o dramalhão que poderia ser explorado com a relação conturbada de Kurt com os pais, a trajetória do Nirvana, os constantes dilemas com a fama, drogas etc. Embora tudo isso seja abordado, a proposta não é discutir e reafirmar fatos já conhecidos por todos, mas sim mostrar como eles afetavam a mente do músico.

O universo pessoal e artístico de Kurt são mostrados através de sua intimidade
O filme busca mostrar todos esses pontos cruciais que definiram e fizeram parte da vida de Kurt como da perspectiva do músico. Um exemplo: uma das questões mais importantes da formação desse perfil cinematográfico se passa no momento em que Kurt forma sua família, com Courtney e Francis. O filme mostra como, em meio às constantes acusações de uso de drogas durante a gravides de Courtney (nunca provadas e sempre negadas por eles), Kurt buscou tirar dessa situação inspiração para seguir com seu trabalho, expondo seus sentimentos através de letras de música, ilustrações e ideias. Talvez até pelo motivo de querer mostrar mais o íntimo de sua vida e personalidade ao invés de enumerar fatos e acontecimentos em si, o filme tenha deixado de fora os meses finais de sua vida e sua morte, se limitando a retratá-lo até o incidente de Roma, quando Kurt quase morreu de overdose, em março de 1994.

Mas provavelmente o principal atrativo de toda essa produção seja a imensidão de imagens e objetos inéditos, conseguidos graças à colaboração de todas essas pessoas próximas do músico. É como se um baú repleto dessas singularidades particulares tivesse sido desenterrado e seu interior mostrado pela primeira vez. O que por si só já torna esse filme obrigatório para qualquer um que admire Kurt, por qualquer motivo. “Montage of Heck” é uma obra que tem mais o objetivo de impressionar do que debater e pontuar. É como uma pintura em exposição, para quem quiser ver e por a sua própria interpretação nela, mas de uma maneira inteligente e que, sem sombra de dúvidas, traça um retrato digno da mente de um músico que influenciou e mexeu com toda uma geração.

sábado, 9 de maio de 2015

Lita Ford – The Bitch Is Back... Live! (2013):



Por Davi Pascale

Depois de passar por um período obscuro, a cantora Lita Ford dá a volta por cima e lança novo registro ao vivo com uma performance contagiante.

Recentemente, a cantora Lita Ford passou por um período negro em sua vida. Depois de vários anos casada com o cantor Jim Gillete (Nitro), seu casamento foi para o vinagre. E de uma maneira não muita bacana. Lita deu a entender, em algumas entrevistas, que havia apanhado de seu ex-marido. E, para piorar a situação, seus filhos viraram as costas para ela. O resultado de todo esse conflito está por trás de seu mais recente álbum Living Like a Runaway (já resenhado nesse blog). E foi justamente do registro dessa turnê que nasceu o disco.

A artista não deixa transparecer suas dores em nenhum momento. O show é bem pra cima, bem rock n roll. Lita Ford sempre foi um acaso atípico na indústria. Apesar de ter sido considerada um sex symbol nos anos 80, nunca deixou a musicalidade em segundo plano. Sempre foi uma boa cantora, uma boa guitarrista e sempre trabalhou com bons músicos. Nesse caso, musica e imagem sempre andaram de mãos dadas. E aqui não é diferente. Os músicos estão bem entrosados e sua voz continua intacta.

Enquanto muitos artistas vêm apostando cada vez mais em ficar tocando apenas os clássicos, a ex-Runaway fez diferente. Trouxe 4 músicas de seu mais recente álbum: “Devil In My Head”, “Hate”, “Relentless”, além da faixa título. Duas canções não tão manjadas entre seus fãs de MTV, mas que seus fãs de carteirinha adoram: “Out For Blood” e "Dancin´ On The Edge". Além de um cover de Elton John, “The Bitch Is Back”.

Registro traz apresentação bem rock n roll e enérgica

A ausência de teclados fez com que as músicas de sua fase mais comercial passassem a se focar mais nas guitarras, ganhando mais peso. Enquanto vários artistas optam por entrar em estúdio para refazer todos os erros do show, a cantora optou por deixar o som nu e cru. O que ouvimos aqui é exatamente o que rola nas apresentações.

Aqueles que gostam de seus hits não precisam se preocupar. Lita continua executando-os em seus shows e aparece o registro de alguns deles por aqui como “Hungry”, “Kiss Me Deadly” e “Close My Eyes Forever”. Infelizmente, meu disco favorito, Dangerous Curves, foi esquecido. Nem mesmo a manjadíssima “Shot of Poison” deu as caras por aqui. Talvez tenha sido uma escolha na hora de montar o repertório do disco, já que esse não é seu primeiro registro ao vivo. De todo modo, trata-se de um grande show. Lita Ford demonstra que ainda consegue levantar a galera e que ainda tem muita lenha pra queimar. Continuo na torcida para que resolva dar uma passadinha aqui no Brasil para alguns showzinhos. Esse é um show que eu gostaria de assistir.

Nota: 8,0/10,0
Status: Empolgante
      
      01)   The Bitch Is Back
      02)   Hungry
      03)   Relentless
      04)   Living Like a Runaway
      05)   Devil In My Head
      06)   Back To The Cave
      07)   Can´t Catch Me
      08)   Out For Blood
      09)   Dancin´ On The Edge
      10)   Hate
      11)   Close My Eyes Forever
      12)   Kiss Me Deadly