quinta-feira, 12 de março de 2015

Kid Rock – First Kiss (2015):



Por Davi Pascale

Kid Rock chega à seu décimo-segundo álbum de inéditas. Cada vez mais afastado da linguagem rap rock que o consagrou, o rapaz se destaca por linhas vocais fortes e canções cativantes. Prova, mais uma vez, ser um dos nomes mais interessantes da cena contemporânea.

O rapaz atingiu o estrelato em 1998 com seu quarto trabalho, Devil Without a Cause e foi acusado pela mídia de ser um branquelo metido à rapper. Na época, apostava em uma sonoridade que estava em bastante evidência: o flerte do rap com o rock n roll. Comecei a acompanhá-lo nesse período. Por mais que não costumasse lançar obras-primas, seus discos sempre traziam momentos interessantes. Mas, quando ele começou a me chamar a atenção mesmo foi em 2003 quando lançou um CD auto-intitulado flertando com o southern rock. A partir dele, seu trabalho veio amadurecendo cada vez mais.

Algo que sempre teve a seu favor foi a voz. Se você pegar uma banda como o Limp Bizkit, por exemplo (que estava em bastante evidência quando ele atingiu as rádios), você notará que Fred Durst é um cantor extremamente limitado. Kid Rock, de outro lado, tem uma voz forte, com um excelente timbre, que o permite se arriscar em novos caminhos. A primeira vez que notei que ele realmente sabia cantar foi em uma dessas premiações transmitidas pela TV, onde fez um dueto com o trio ZZ Top.

Kid Rock continua se utilizando de influências country

First Kiss está sendo vendido como um disco de heartland rock, assim como aconteceu com seus dois trabalhos anteriores: Born Free e Rebel Soul. Talvez, para muitos aqui no Brasil, esse seja um termo estranho. Não se preocupe se nunca ouviu falar disso. O termo é muito popular nos Estados Unidos. Há bastante similaridades com o southern rock. Trata-se de uma sonoridade mesclando country e rock, incluindo elementos de americana (termo que utilizam para se referir à música de raiz). A diferença é que aquele lado blues bastante presente na linguagem southern não aparece aqui.

Ou seja, a influência country continua a toda. Baladas como “Drinkin´ Beer With Dad” e “Say Goodbye” deixam escancarado sua preferência pelo gênero. Essa última, uma parceria com o músico Bob Seger. Kid Rock compôs 90% do disco, mas talvez muitos não tenham reparado, já que ele optou por assinar a produção do disco como Kid Rock e as composições por seu nome de batismo: Robert James Ritchie.

Dentro desse universo conhecido como heartland rock é permitido uma aproximação com elementos modernos, desde que sua sonoridade não seja descaracterizada. Desde os anos 80, vários artistas do gênero têm incorporado sintetizadores em sua música. Aqui, aparecem algumas baterias eletrônicas em faixas como “Good Times, Cheap Wine” e “Good Time Lookin´For Me”, mas sem perder aquela vibe roots. Essas batidas não são o elemento principal das canções, como acontece em boa parte das músicas pop atuais, são apenas um detalhe a mais. E, muitas vezes, são misturadas com o som de bateria acústica.

Seus últimos álbuns em nada lembram seus momentos de rapper

As letras dessa vertente costumam girar em cima de desilusões, nostalgia, oportunidades limitadas, em tom de narrativa e contando com uma linguagem mais ríspida. O cantor mantém o clima. O elemento nostalgia aparece já na faixa título (“Agora nesses dias em que eu dirijo nas pequenas cidades. Ligo meu rádio, desço a janela. Porque me recorda de meu primeiro beijo e daqueles dias que tanto sinto falta”). Não falta uma homenagem à um de seus grandes ídolos, Johnny Cash, em uma faixa que leva o nome do artista. A parte de desilusão aparece como uma crítica política em “Ain´t Enough Whiskey” (“Eles falam sobre o pobre, sobre enviar minha filha à guerra. Macacos de terno, escrevendo leis e regras. Parece não ter fim. Não ouvirei aqueles palhaços. Eu sei o que é certo).

Se você já ouviu seus discos mais recentes, já sabe mais ou menos o que esperar. Se você não conhece nada além dos hits “Cowboy”, “American Bad Ass” e “Bawitdaba” vale dar uma nova chance ao garoto. Kid Rock de hoje não tem nada a ver com o Kid Rock do final dos anos 90. Belo álbum!

Nota: 8,5 / 10,0
Status: Excelente!

Faixas:
      01)   First Kiss
      02)   Good Times, Cheap Wine
      03)   Johnny Cash
      04)   Ain´t Enough Whiskey
      05)   Drinkin´ Beer With Dad
      06)   Good Time Lookin´ For Me
      07)   Best Of Me
      08)   One More Song
      09)   Jesus and Bocephus
      10)   Say Goodbye (Bonus Track)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Blind Guardian – Beyond the Red Mirror (2015)

Por Rafael Menegueti

Blind Guardian - Beyond the Red Mirror
Se você é fã de power metal e não conhece Blind Guardian, tem algo de errado com você. Esses alemães são considerados um dos maiores expoentes do gênero. Com “Beyond the Red Mirror” a banda chega ao seu decimo álbum de estúdio, sendo que já se faziam cinco anos desde o ultimo lançamento inédito. A formula desse trabalho é a mesma já consagrada pela banda: músicas grandiosas, com vocais épicos e uma historia fantástica, em mais um álbum conceitual para fazer a cabeça de seus fãs.

O disco traz de volta um personagem e universo já explorados pela banda no disco “Imaginations From the Other Side”, lançado 20 anos atrás. O “espelho vermelho” citado no nome do álbum seria o único portal que interliga os dois mundos da historia, precisando ser encontrado a qualquer custo. A partir dai surge toda a fantasia e mitologia clássicas que dão forma às historias criadas por Hansi Kürsch. Se a historia já é um atrativo bem interessante, a música vem para complemente ainda mais a experiência dos ouvintes do disco.


A banda sabe como usar os elementos que seu estilo propõe. “Beyond the Red Mirror” é mais um festival de belas linhas de guitarra, corais, elementos orquestrais aliados com melodias fortes e impactantes, com uma levada dramática que casa perfeitamente com a aventura mostrada na historia. Na primeira faixa a banda já mostra esse seu universo sonoro com “The Ninth Wave”, bem viajada, com forte uso de corais na introdução e um refrão empolgante numa canção com mais de nove minutos de duração, mas que não cansa quem ouve.

O single “Twilight of the Gods” é uma pancada, frenética e com vocais elevados. O disco segue com a divertida “Prophecies”, onde a historia do disco começa a ganhar mais força, com o anuncio de tempos sombrios que estão por vir. “At the Edge of Time” já tem ritmo mais contagiante e é carregada pela forte orquestração. “Ashes of Eternity” apresenta um andamento mais caótico, com um peso que combina com o momento mais tenso da historia contada. “The Holy Grail” é outra porrada, com um refrão onde os vocais se destacam em parceria com os corais. “The Throne” é uma das melhores canções do álbum, com uma sonoridade épica, onde novamente os solos de guitarra e a orquestração se destacam ao longo de seus sete minutos.

O disco e a historia vão caminhando para sua conclusão e, quando entra “Sacred Mind”, temos um momento mais cadenciado, que logo progride para um ritmo acelerado e alucinante. “Miracle Machine” vem em seguida como a faixa mais calma do disco, levada por piano e mais da habilidade vocal de Hansi Kürsch aliada ao coral (meio ao estilo Queen até). Pra encerrar, vem o momento decisivo da historia com uma faixa a altura, “Grand Parade”, outra grande composição que corre por nove minutos intocável, sem deixar você pensar em desistir de ouvi-la.

É claro que “Beyond the Red Mirror” tem muito mais detalhes. O disco é um trabalho que traz mais uma historia rica, mais uma das grandes produções assinadas pela banda. Musicalmente ele não deixa a desejar em quase nada. Obvio que a melhor forma da banda é insubstituível, mas o Blind Guardian ainda sabe produzir discos grandiosos sem parecer chatos depois de tantos anos. Por isso, “Beyond the Red Mirror” conquistou os fãs e deu nova vida ao Blind Guardian após esses cinco anos de espera por algo novo. Resta agora esperar os shows no Brasil no segundo semestre.


Nota: 8,5/10
Status: empolgante e épico

Faixas:
01. The Ninth Wave
02. Twilight of the Gods
03. Prophecies
04. At the Edge of Time
05. Ashes of Eternity
06. The Holy Grail
07. The Throne
08. Sacred Mind
09. Miracle Machine
10. Grand Parade

terça-feira, 10 de março de 2015

Epica + DragonForce (Audio SP, São Paulo- 08/03/2015)

Por Rafael Menegueti

Neste domingo ocorreu o encerramento da turnê brasileira do Epica ao lado dos ingleses do DragonForce. As bandas se apresentaram em São Paulo no Audio SP, e a casa ficou lotada. Pra mim, que já havia conferido um show da dupla em Londres no ano passado, os shows conseguiram ser bem interessantes, pois ambas as apresentações foram bem diferentes das realizadas em solo europeu.

Embora ambas as bandas tenham bom público por aqui, era visível que a maioria esmagadora de presentes na casa estava ali pelo Epica. Muitos não conheciam direito o DragonForce ou só se lembravam da banda pelo sucesso do game “Guitar Hero”, no qual as músicas da banda faziam parte. Por isso então, quando os ingleses subiram no palco pontualmente às 19h30 , a plateia parecia mais curiosa com o que viria do que empolgada.

DragonForce em São Paulo
Apesar do que muitos dizem por aí, sobre a banda não ser tão boa ao vivo, o DragonForce fez um excelente show. Tocaram oito músicas e com um carisma imenso e brincadeiras entre os integrantes no palco e a plateia, conseguiram conquistar o público. A banda mostrou faixas de seu mais recente álbum, “Maximum Overload” e também algumas conhecidas dos anteriores. O estilo de power metal mais acelerado, que prioriza solos absurdamente rápidos, bem diferente do que o Epica mostra, pareceu divertir os presentes, que entre os que conheciam e os que desconheciam a banda, se misturaram e aproveitaram o show. Pontos altos para canções como “Cry Thunder”, “The Game” e “Valley of the Damned”, além de momentos com canções mais melódicas do grupo, casos de “Seasons”,  “Three Hammers” e “Symphony of the Night”. E sem falar, claro, no encerramento excelente com “Through the Fire and Flames”, faixa mais famosa da banda, exatamente por causa de “Guitar Hero”. Ao final, era possível ouvir comentários de quem não conhecia a banda dizendo “tem que respeitar, os caras são bons”.

DragonForce
Também pontualmente os holandeses do Epica subiram ao palco. E pra mim foi uma satisfação saber que eles fizeram um show para atender especialmente aos fãs daqui. O setlist foi bem distribuído, com músicas de todas as épocas da banda. O inicio do show, como sempre, ficou a cargo das primeiras faixas do mais recente trabalho da banda, dessa vez “The Quantum Enigma”: “Originem”, “The Second Stone” e “Essence of Silence”. “The Last Cruzade” veio em seguida satisfazer os fãs mais dos primórdios da banda. Dois singles de álbuns mais recentes, “Unleashed” e “Storm the Sorrow” vieram em seguida.

Epica durante o show em São Paulo
Vale destacar o carisma característico e a presença de palco dos músicos. Em todo show do Epica eles demonstram cada vez mais como sabem envolver e emocionar seus fãs com performances perfeitas. Simone Simons e Mark Jansen comandavam o espetáculo como sempre, enquanto Coen Janssen, Rob van Der Loo e Isaac Delahaye interagiam entre eles e com o público.

Simone e Mark comandavam o show
A banda mostrou que ouviu os apelos dos fãs brasileiros ao executar “Façade of Reality”, faixa do primeiro disco da banda e que chegou a ser pedida através de abaixo assinado pelos brasileiros. Depois veio “Fools of Damnation”, excelente canção do álbum “Divine Conspiracy” e que voltou ao setlist no ano passado. A parte de clássicos da banda ainda seria completada com “Sensorium”, “The Obsessive Devotion” a sempre ovacionada “Cry for the Moon”, que foi executada seguida mais uma vez por um solo de bateria magistral de Ariën van Weesenbeek. Ainda teve antes o single recente “Victims of Contingency”. A primeira parte do show foi encerrada com a longa e bela “Design Your Universe”.

Epica
No bis, a banda voltou vestindo camisas da seleção brasileira de futebol para mais três músicas. Primeiro a já habitual “Sancta Terra”, sempre presente nos setlists. “Unchain Utopia” fechou o ciclo de canções do álbum “The Quantum Enigma”, enquanto o encerramento ficou a cargo, como sempre, de “Consign to Oblivion”, mais uma vez executada de uma maneira de tirar o folego. O Epica deixou o palco do Audio SP com o jogo ganho, uma plateia mais do que satisfeita e a certeza de ter encerrado uma de suas melhores turnês do país com chave de ouro.



Mark Jansen com camisa da seleção brasileira
Fotos: Rafael Menegueti

Setlists


DragonForce:
1. Fury of the Storm 
2. Three Hammers 
3. The Game 
4. Seasons 
5. Symphony of the Night 
6. Cry Thunder 
7. Valley of the Damned 
8. Through the Fire and Flames 

Epica:
Originem (intro)
1. The Second Stone 
2. The Essence of Silence 
3. The Last Crusade 
4. Unleashed 
5. Storm the Sorrow 
6. Façade of Reality 
7. Fools of Damnation 
8. Sensorium 
9. The Obsessive Devotion 
10. Victims of Contingency 
11. Cry for the Moon (With Drum Solo)
12. Design Your Universe 

Encore:
13. Sancta Terra 
14. Unchain Utopia 
15. Consign to Oblivion 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Graveyard – Lights Out (2012):


Por Davi Pascale

Terceiro álbum dessa que é considerada uma das novas revelações do rock. Bastante influenciado pelo hard rock setentista, grupo tem de tudo para agradar aos amantes do gênero.

Alguns dias atrás, escrevi sobre o Blues Pills e comentei que havia uma nova cena de rock n roll vindo com força. Graveyard é mais um desses conjuntos que estão começando a serem aclamados no exterior. Algumas de suas inspirações sãos as mesmas: Cream, Led Zeppelin. Aqui há um pouquinho de Black Sabbath também. A sonoridade, contudo, é bem distinta. Com guitarra um pouco menos suja, vocal mais grave.  

Assim como o grupo da semana passada, esses rapazes vieram da Suécia, dessa vez de Gothenburg. Os músicos iniciaram a atividade em 2006. O guitarrista/vocalista Joakim Nilsson e o baixista Rikard Edlund, vieram do mesmo conjunto: Norrsken. É possível que alguns de vocês já tenham lido esse nome por aí, já que suas cinzas também renderam o nascimento do Witchcraft. Antes de iniciaram o Graveyard, contudo , criaram o Albatross. Uma banda de blues rock que não foi pra frente. Resolveram se reunir então com o guitarrista/vocalista Truls Mörck e o baterista Axel Sjöberg e estava formado o grupo.

Lights Out ainda é seu mais recente trabalho. Em 2013, os caras fizeram uma turnê européia dividindo os palcos com o Soundgarden, já promovendo esse disco. Essas apresentações ajudaram a trazer um pouco mais da atenção da imprensa para os meninos que já vinham se destacando na cena, desde seu álbum anterior, Hisingen Blues.

Grupo fez uma série de shows ao lado do Soundgarden em 2013

Ainda que tenham declarado à Rolling Stone dos Estados Unidos que nunca tenham tido a pretensão de soar como um grupo setentista, é quase impossível não fazer alguma associação com os conjuntos da época, enquanto ouvimos o álbum. A própria capa tem uma ideia similar à do álbum Look At Yourself do Uriah Heep. “An Industry Of Murder” nos remete aos primeiros anos de Black Sabbath, tem um ‘q’ de Blue Cheer também. “The Suits, The Law And The Uniform” aposta naquela sonoridade hard/blues que o Free fazia tão bem, porém com uma pegada mais moderna. Há algumas baladas com uma cara meia psicodélica que permeiam o disco como “Slow Motion Countdown” ou “20/20”. Entretanto, são os momentos mais rock n´roll que me chamaram a atenção mesmo.

Não é de hoje que se faz essa sonoridade setentista com uma cara mais moderna. Grupos como Wolfmother, Hellacopters, The Donnas, entre outros, já apostavam nessa cartilha. Portanto, não é raro notar algumas semelhanças com alguns desses artistas também durante a audição. O trabalho de guitarra e bateria de “Fool In The End” e refrão de “Goliath”, por exemplo, me remeteram bastante à algumas canções dos Hellacopters. Ao que tudo inidica, temos uma cena bastante promissora vindo por aí. Vale a pena ficar ligado!

Nota: 8,0 / 10,0
Status: Empolgante

Faixas:
      01)   An Industry Of Murder
      02)   Slow Motion Countdown
      03)   Seven Seven
      04)   The Suits, The Law & The Uniforms
      05)   Endless Night 
      06)   Hard Times Lovin´
      07)   Goliath
      08)   Fool In The End
      09)   20/20 (Tunnel Vision)

domingo, 8 de março de 2015

Rita Lee - A Marca da Zorra (1995):



Por Davi Pascale

Hoje é o dia internacional da mulher. Ano passado fizemos uma semana inteira comemorando a data. Dessa vez, faremos um único post. Até para não saturar o tema, já que queremos encher a paciência de vocês por muitos anos ainda. Não foram poucas as vezes que o rock foi considerado machista, mas isso é uma bobagem tão grande quanto considera-lo satanista ou música de drogado. São termos associados quase sempre à uma má interpretação de algum fato ou por algum preconceito desenvolvido em cima do slogan sexo, drogas e rock n´ roll. Se existe uma artista que deitou e rolou com tudo isso é a cantora Rita Lee.

Muitos gostam de diminuí-la dizendo que seu som não é rock. Que é uma artista pop ou, até mesmo, MPB. É bom lembrar a moçada que espalha essa barbaridade por aí que antes de se lançar como artista solo, Rita passou por, ao menos, dois grupos que atingem o status de clássicos: Mutantes e Tutti-Frutti. E que, em ambos, deixou sua força mais do que comprovada. Pois nenhuma das duas bandas foram capazes de sobreviver sem ela. O grupo do icônico Luís Carlini chegou a gravar um LP sem Rita. Ninguém viu, ninguém ouviu... Os Mutantes depois de a expulsarem do conjunto entraram em um declínio de popularidade e criatividade como nunca visto antes. O resultado? O fim depois de dois LP´s fracassados. Rita, por outro lado, construiu uma carreira sólida que é digna de respeito até hoje.

Os mais rebeldes irão querer defender à unhas e dentes o ótimo grupo de Sérgio Dias e Arnaldo Baptista dizendo que são ótimos músicos, que possuem reconhecimento internacional, que são gênios e que foram fiéis ao rock. Ora, me poupe. Os caras realmente são gênios, realmente são excelentes músicos, mas o Mutantes é reconhecido por seus primeiros trabalhos e não pela fase que eles queriam copiar o Yes e nem por seus discos atuais. Os discos não são ruins, mas não tinham mais a criatividade, o deboche, a ironia dos LP´s gravados na fase da Rita (se bem que esse último deles, não tive a oportunidade de ouvir ainda). Não há como negar que sua saída teve um grande impacto. Quanto à história de rock, MPB, pop... Qualquer que seja seu gênero, se você quiser fazer algo genuinamente brasileiro, em alguns momentos você irá esbarrar com alguma influência tupiniquim. Oras mais descarada, oras menos descarada. Afinal, o rock não nasceu no Brasil, certo? E, em muitos momentos, a cantora conseguiu fazer trabalhos que nem mesmo o maior hater conseguiria diminuí-lo. Caso do disco homenageado de hoje.

Apresentação contava com tom teatral

A Marca da Zorra trouxe várias das velhas característica de volta. Depois de fazer um trabalho cruzando rock n roll com bossa nova (o Bossa n´ Roll), Rita Lee Jones resolveu retornar ao rock básico. Para sua banda, trouxe o baterista Paulo Zinner (Golpe de Estado), Lee Macucci (Herva Doce) para o contrabaixo, os teclados ficaram por conta de Fábio Recco (Mutantes, nova formação), Ronaldo Paschoa (Guilherme Arantes, Tutti-Frutti) assumiu a segunda guitarra e sua irmã Virgina Lee ficou responsável pelos backing vocals. Claro que não poderia faltar seu marido Roberto de Carvalho atacando como guitarrista principal e diretor musical.

Aquele rock sujo e gostoso de ouvir, como gostam de escrever o pessoal mais das antigas, é a tônica desse espetáculo. No repertório, vários sons dos seus primeiros trabalhos solo, além de algumas releituras dos seus tempos de Mutantes (“Ando Meio Desligado”) e Tutti-Frutti (“Jardins da Babilônia”, “Miss Brasil 2000” e “Mamãe Natureza”). Guitarra no volume certo, baixo bem presente e vocal extremamente nítido. Certamente, dentre todos os registros ao vivo, lançados pela cantora, esse é meu favorito. Em “Papai Me Empresta o Carro”, Roberto de Carvalho assume os vocais. Paulo Zinner brilha em um solo de bateria realizado dentro de “On The Rocks”. Rita continua com seu estilo habitual de sempre. Sem fazer malabarismos, mas sempre muito afinada.

Nessa tour, não faltaram polêmicas. A começar, o espetáculo (que era bem diferente do especial exibido pela Globo levando o mesmo nome) contava com um tom teatral envolvendo inúmeras trocas de roupa. Não demorou muito e iniciaram as comparações com a gira de Babilônia (1978). A apresentação envolvia ilusionismos e mulheres nuas. É óbvio que o fato de ter uma mulher nua no palco causa um estardalhaço na imprensa. Outro estardalhaço seria causado antes mesmo da gravação do disco ao vivo. Mais especificamente no Hollywood Rock de 1995, quando a cantora dividiu o palco com os Rolling Stones. Acontece que a primeira noite em SP, a qual eu estava presente, ela não apareceu. A notícia foi dada de última hora, causando decepção em boa parte da plateia e gerando algumas vaias, inclusive. No dia, foi anunciado que ela não estava se sentindo bem. No dia seguinte, foi anunciado por parte da imprensa que a artista havia sofrido uma overdose no camarim, minutos antes do show e havia sido encaminhada para o hospital.

Espetáculo foi sucesso de critica e publico

Apesar das polêmicas, a turnê foi sucesso de crítica e público. O que levou a Rede Globo a criar um especial televisivo de mesmo nome, como já citado anteriormente. Porém, com um enfoque totalmente distinto. Utilizando a desculpa de 30 anos de rock brasileiro, vários artistas juntaram-se à cantora para a gravação do especial e as encenações ganharam novos temas. Entre os artistas convidados estavam Fernanda Abreu, Planet Hemp, Raimundos, Marisa Monte, Pato Fu e Barão Vermelho. Eram intercalados clipes, entrevistas com alguns momentos do show, além dos duetos. Claro que as cenas polêmicas ficaram de fora.

É verdade que Rita durante sua carreira solo cruzou seu som, sim, com MPB e com música Pop. Mas, nunca deixou de ser uma artista de rock. Em uma carreira regada à drogas, álcool e prisões (a primeira ocorrida em 1976 por porte de maconha), sempre passou por cima de rótulos, sempre se preocupou em escrever letras com conteúdo. O espetáculo A Marca da Zorra serve como demonstração de seu legado. Das 14 músicas gravadas, ao menos 12 são considerados clássicos de sua trajetória. Álbum recomendado até mesmo para aqueles que dizem gostar de uma ou outra coisa da cantora...

Nota: 9,0 / 10,0
Staus: clásssico

Faixas:
01)   A Marca da Zorra
02)   Nem Luxo Nem Lixo
03)   Dançar Pra Não Dançar
04)   Jardins da Babilônia
05)   Ando Meio Desligado
06)   Vítima
07)   Todas as Mulheres do Mundo
08)   Papai Me Empresta o Carro
09)   Atlântida
10)   Mamãe Natureza
11)   Ovelha Negra
12)   Miss Brasil 2000
13)   On The Rocks
14)   Orra Meu

sábado, 7 de março de 2015

Notícias do Rock (pra não ficar por fora)

Por Rafael Menegueti

Rock In Rio confirma mais atrações

Mastodon será atração do Rock In Rio
Depois do Metallica e Queen + Adam Lambert, o Rock In Rio anunciou oficialmente mais dois nomes essa semana. Mastodon, uma das bandas mais aclamadas da atualidade, e o projeto De La Tierra, que une músicos latinos, entre eles Andreas Kisser (Sepultura) e Alex Gonzalez (Maná), tocaram na noite dedicada ao metal. Outras fontes dão como quase certo que o Angra também deve ser anunciado em breve. Vamos aguardar.

Dimmu Borgir está produzindo novo álbum

Depois de cinco anos do lançamento de “Abrahadabra”, os noruegueses do Dimmu Borgir estão finalmente trabalhando em novo disco. A banda de black metal não deu muitos detalhes, apenas que eles entraram em estúdio para iniciar os trabalhos de pré-produção do disco, que eles esperam lançar ainda esse ano.

Novo disco do Cain's Offering tem detalhes anunciados

O projeto que envolve o vocalista Timo Kotipelto (Stratovarius), o guitarrista Jani Liimatainen (ex-Sonata Arctica) e o tecladista Jens Johansson (Stratovarius, ex-Dio e Yngwie Malmsteen) está com segundo disco pronto, que será lançado no final de abril. O trabalho se chama “Stormcrow”. Veja a capa e o tracklist:


1. Stormcrow 
2. The Best of Times 
3. A Night to Forget
4. I Will Build You A Rome 
5. Too Tired To Run 
6. Constellation of Tears 
7. Antemortem
8. My Heart Beats For No One 
9. I Am Legion
10. Rising Sun 
11. On The Shore  
12. Child of the Wild (Bonus Track)

David Gilmour anuncia novo álbum solo para o segundo semestre

David Gilmour: Turnê e disco novo em setembro
O guitarrista do Pink Floyd anunciou em seu site que um novo disco de estúdio, o quarto de sua carreira solo, deverá ser lançado em setembro desse ano. O lançamento coincide com o início de uma nova turnê do músico. Ano passado, o músico já havia lançado “The Endless River”, ultimo e bem sucedido disco do Pink Floyd.

Morre Vital, primeiro baterista do Paralamas do Sucesso

Vital Dias, ex-baterista do Paralamas do Sucesso morreu no último dia 3. O músico, que ficou imortalizado na historia da banda por ter sido o tema da canção “Vital e Sua Moto”, primeiro hit do grupo, morreu em decorrência de um câncer. A banda lamentou a morte do amigo em um post no Facebook. Foi a segunda perda de um ex-integrante da cena do rock de Brasília em poucos dias, já que na semana passada o ex-baixista da Legião Urbana Renato Rocha também havia nos deixado.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dr. Sin – Intactus (2015):



Por Davi Pascale
            
Trio paulista chega à seu sétimo álbum de inéditas mantendo sua tradicional mistura de hard/heavy com progressivo. Em Intactus, trio não reinventa a roda, mas mantém a qualidade de seus trabalhos anteriores.

Dr. Sin é aquela típica banda que tinha de tudo para acontecer, mas a mídia insiste em fingir que não vê. Com músicos de primeiro time, ótimas composições, tinham de tudo para estar entre os grandes vendedores de discos em nosso país. Parte dessa não consagração, acredito ser por cantarem em inglês. Por conta do modo como ocorreu a explosão do Sepultura, criou-se um mito de que era possível atingir fama mundial, caso cantassem na linguagem do Tio Sam. Isso fez com que vários artistas que não tinham domínio do idioma começassem a gravar em um inglês macarrônico, o que ajudou a afastar ainda mais os empresários. Se heavy metal já não era bem visto em nosso país, depois dessa moda (que dura até hoje) então...

Tomei conhecimento do trio por ser, até então, o novo grupo dos ex-integrantes da banda Taffo. Engraçado que na época do primeiro disco, tinha certeza que os caras iam arregaçar. Sua apresentação no Hollywood Rock em 1993 foi considerada um dos grandes destaques do festival pela imprensa. Os clipes de “Emotional Catastrophe” e “Silent Scream” tiveram um destaque razoável na MTV. Essa mesma MTV chegou a exibir um programa chamado Peso Local com os melhores momentos dos shows de 3 grupos brasileiros: Pitbulls On Crack, Angra e o Dr. Sin. Outra situação que ajudou a abafar o reconhecimento dos meninos foi o fato da Rock Brigade (até então a principal publicação de rock pesado do país) ter empresariado o Angra. Esse fato fez com que ficasse cada vez mais raro grupos nacionais ganharem um grande destaque na publicação (principalmente capa). Muitos ótimos artistas nacionais passaram despercebidos por seus leitores. A revista era uma referência para os amantes de hard/heavy em nosso país. Sem apoio da grande mídia e com descaso da mídia especializada fica difícil dominar o mercado.

Mesmo assim, conseguiram criar uma base de fãs incrivelmente fiéis. E, certamente, irão mantê-los com esse lançamento. “Saturday Night” abre o CD com um tema que é um pouco clichê, mas que os fãs do movimento amam. Fala sobre curtir o fim-de-semana, esquecendo dos problemas, ao som do bom e velho rock n´ roll. O arranjo é bem pra cima, um som divertido de se escutar. “How Long” vem na sequencia trazendo o som tradicional do Dr. Sin. O grande destaque nessa música é o trabalho vocal de Andria Busic. Após mais de três décadas esgoelando por aí, o cara encontra-se com as cordas vocais em perfeitas condições ainda.

Trio se destaca por capacidade técnica e ótimas composições

“We´re Not Alone” traz aquele som pesado misturando momentos velozes com momentos arrastados, nos remetendo aos tempos de Brutal. A primeira balada do disco é Soul Survivor”, onde os irmãos Busic dividem os vocais. Alguns elementos de Southern rock aparecem por aqui. Especialmente na linha vocal de Ivan, que em certos momentos nos remete à Lynyrd Skynyrd. “The Great Houdini” traz um som mais cadenciado, casando baixo com guitarra. Uma das características principais do trio, que os acompanha desde seu debut. No meio dessa música tem uma quebrada de tempo altamente influenciado por Rush. Outra característica que os acompanha desde sempre.

“This Is The Time” e “Without You” são as baladas presentes na segunda parte do disco. Dessa vez, com uma cara mais anos 80. “The Big Screen” deve fazer a cabeça dos fãs de Van Halen. Tanto o trabalho de Edu Ardanuy quanto o de Ivan Busic nos remetem aos trabalhos do Van Halen fase David Lee Roth. Andria e Edu roubam a cena na cativante “Set Me Free”. Já a faixa de encerramento,“Fight The Good Fight”, surpreende ao trazer um arranjo trincado, com influencias de prog (o inicio me lembrou Dream Theater) em um som não tão pesado assim. Ficou bacana.

Espero que um dia esses caras consigam atingir o reconhecimento que merecem. A prova de que não precisa criar novos grupos para ter uma cena forte de rock na mídia. Os ótimos artistas estão por aí. Basta investirem. O mais triste de tudo é saber que com bandas desse nível, a atenção da imprensa está voltada para o disco de rock que o Mr. Catra está gravando. E mais triste ainda é notar que tem fã de rock apoiando. Hora de acordar...

Nota: 9,0 / 10,0
Status: Excelente

Faixas:
      01)   Saturday Night 
      02)   How Long
      03)   We´re Not Alone
      04)   Soul Survivor
      05)   The Great Houdini
      06)   This Is The Time
      07)   The Big Screen
      08)   Set Me Free
      09)   Without You
      10)   Fight The Good Fight