sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Kamboja – Kamboja (2014)





Por Davi Pascale

A cena mainstream brasileira já teve dias melhores, bem melhores por sinal. Que o diga os anos 80, onde tínhamos grupos do porte de Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana e Ultraje a Rigor invadindo as rádios. Ou então os anos 60, com a explosão do Jovem Guarda e nomes como Roberto Carlos, Wanderléa, Os Incríveis e Erasmo Carlos liderando a audiência da televisão. Atualmente, na cena mainstream brasileira tem um ou outro nome que me agrada, a maioria acho fraca. No underground, contudo, o rock brasileiro nunca esteve tão forte. E a idéia hoje é falar justamente de uma banda que vem crescendo na cena underground: o Kamboja.

A banda é nova. Os integrantes, não. Já conhecia Fabio MK, o André Curci e Paulo Thomas das apresentações que faziam no lendário e extinto Blackjack Rock Bar. Assisti o Baranga lançando seu primeiro CD lá. O batera deles era o Paulo, ou como é mais conhecido entre o pessoal das antigas, o Paulão. E, nessa época, o cara já era macaco velho. Ele foi o responsável pelas baquetas do Centúrias, grupo que fazia parte da primeira leva de bandas de metal nacional. Os caras participaram do projeto SP Metal, lançaram vinis pela Baratos Afins. Aquela história toda. Agora, depois de anos separados, a banda voltou, mas sem ele.

O Fabio MK, o pessoal chamava ele de Macarrão. Lembro dele cantando em uma banda cover do Skid Row chamada Skid Rolla que assisti diversas vezes. Tanto no Blackjack quanto no Manifesto, quando esse tinha ainda uma outra cara, com palco em outra posição. Também lembro dele apresentando um programa de heavy metal que passava na madrugada, o Sleevers. Já o André Curcci, assisti com o Threat. Tenho, inclusive, um CD demo do conjunto que comprei em uma dessas apresentações. Também foi um dos guitarristas do Musica Diablo, ao lado de Derrick Green (Sepultura). Mas esse não assisti ao vivo... O único que não me recordava é o baixista Frank Gasparotto. Pode até ser que tenha assistido ele com alguma banda e não esteja lembrando, mas...

Banda paulistana faz som pesado e com letras em portugues. Guitarras apresentam forte influencia de AC/DC

Algo que me deixa muito feliz nessa nova cena brasileira é notar que as bandas não estão querendo soar como o novo Angra, o novo Sepultura ou o novo Krisiun. Pelo contrário, estão trazendo de volta uma sonoridade hard que há muito tempo estava perdido na cena brasileira. Outra característica bacana é a volta das letras em português. Nada contra bandas brasileiras que cantam em inglês. Adoro várias delas: Dr. Sin, Korzus, Shaman, Viper, Angra, Hangar, Sepultura, Shadowside, por aí vai... Só não gosto quando gravam com inglês tosco. Acho que esse tempo já passou. De todo modo, sentia falta de bandas mais pesadas cantando em português. A cena começou assim com grupos como Salario Minimo, Harppia, Stress, e depois de um tempo, essa característica se perdeu. Feliz com essa retomada.

Na verdade, o álbum de estreia ainda está sendo preparado. O que está disponível para venda é um CD de apenas 4 faixas que te dá uma dimensão da proposta dos caras. A qualidade de gravação é apenas ok. As faixas, contudo, são excelentes. “Acelerando” abre o EP com uma sonoridade bem direta, onde destaca-se o trabalho de bateria com uma levada à la Tommy Lee, com a famosa marcação de bumbo e caixa juntos. Em “Bomba Relógio” e “Tarde No Bar” destacam-se os excelentes riffs de guitarra. Aliás, quem curte AC/DC, irá delirar com esse CD. Os riffs são altamente influenciados pela banda australiana. Já “Dona da Madrugada” chama a atenção pela letra hilária. Versos como “Vai dando a mão pra molecada/Ela é a dona da madrugada/Faz mais sucesso que a seleção/Que golaço de profissão” são geniais. Fabio fez um ótimo trabalho vocal, mas não conseguiu perder a influência do Sebastian Bach. Nos sustains e nos momentos em que joga a voz pra cima, é quase impossível não nos lembrarmos do cantor do Skid Row. As letras abordam situações tipicas do universo rock n roll falando de noitadas no bar, estrada, mulheres.  Diversão pura!

Nas próximas semanas, pretendo escrever de mais umas 3 ou 4 bandas que ainda não atingiram o estrelato e que acho que vale a pena a galera ficar esperta. Deixo agora com vocês, um clipe da banda para que vejam se aprovam ou não o som dos caras. Confere aí... 


Nota: 8,0 / 10,0
Status: rock n roll pesado e divertido

Faixas:
      01)   Acelerando
      02)   Bomba Relógio
      03)   Tarde no Bar
      04)   Dona da Madrugada

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Velhas Virgens – Todos os Dias A Cerveja Salva a Minha Vida! (2014)





Por Davi Pascale

E o irreverente grupo Velhas Virgens chega à mais um álbum. Menos desbocados, mas mantendo a veia rock n´ roll, os caras soltaram um CD para roqueiro nenhum botar defeito. Quero ver qual é a desculpa agora para não tocarem a banda nas rádios...

Velhas Virgens = putaria, certo? Bem... nem sempre. É claro que é uma das temáticas preferidas tanto dos músicos, quanto dos seus fãs. E é claro que é um dos pontos altos do show. Entretanto, em sua discografia, já houve vezes onde eles pegaram mais leve nesse quesito. Com a Cabeça No Lugar é um bom exemplo e esse novo álbum também. Como o título entrega, o assunto principal é a bebida. Outro assunto típico e presente em todos os discos dos rapazes. E também as brigas entre casal (muitas vezes, por conta da bebida).

O novo trabalho abre com uma frase extraída da película A Banda Das Velhas Virgens, um dos últimos filmes de Mazzaropi. Local de onde foi retirado o nome do grupo. A primeira música é “Balada Para Charlie Harper”, uma singela homenagem ao personagem principal do seriado Two And a Half Men. Também pudera. O personagem é um músico que gosta da vida boêmia, passa cada noite com uma garota diferente e está sempre bebendo (álcool, é claro). Quer algo mais Velhas Virgens do que isso? “Pau No Meu Cu” vem na sequência com a sonoridade típica do Velhas, altamente influenciada pelo blues rock dos anos 70. Essas duas têm de tudo para se tornarem novos hinos do grupo.

Uma que tem de tudo para se tornar um ponto alto nos shows é “O Que Seria do Rock”, uma homenagem ao nosso tão amado gênero, onde Paulão se lembra de alguns personagens que foram fundamentais nessa historia. De Little Richard à Marilyn Manson. De Ney Matogrosso à Cazuza. Sacada genial!

Grupo solta trabalho com letras menos sacanas

No lado instrumental, traz um pouco de tudo que já foi realizado dentro da trajetória do Velhas. O blues aparece firme e forte em “Problemas Com a Bebida”, a sonoridade mais crua e direta, quase punk aparece em “Dedo-Duro, Puxa-Saco e Covarde”, o lado baladeiro surge em “Uma Lágrima no Rosto”. A música tendo sua cantora assumindo o vocal principal aparece em “Matadora de Aluguel”, enquanto o dueto entre Juliana e Paulão surge em “Sexy Hot”. Os arranjos mais ousados são os de “Kid Marreta”, onde cruzam o rock n roll com baião e a já citada “Matadora de Aluguel”, onde cruzam o rockabilly com o mariachi criando uma sonoridade de salloon. Essa também deve funcionar muito bem ao vivo. Ainda mais que a Juliana Kosso tem uma ótima presença de palco e dá pra ela brincar bastante (sem nenhum trocadilho) em cima dessa letra.

O guitarrista Alexandre Cavalo e o vocalista Paulão de Carvalho continuam sendo os principais compositores do Velhas Virgens. Entretanto, as portas não estão fechadas para a contribuição dos demais integrantes. O baixista Tuca Paiva divide os créditos de “Kid Marreta”, enquanto Roy Carlini assina sozinho “Você Foi Feita Pra Mim”. Todos Os Dias A Cerveja Salva A Minha Vida foi patrocinado pelos seus próprios seguidores, através do sistema de crowdfunding. Ainda que as letras estejam menos sacanas, o trabalho não decepciona. Pelo contrário, os caras entregaram um trabalho maduro, mantendo a essência da banda. Ou seja, rock n´ roll e diversão. O que seria do rock, sem Velhas Virgens?

Nota: 8,5 / 10,0
Status: Menos explicito

Faixas:
01)Balada Para Charlie Harper (Todos Os Dias A Cerveja Salva A Minha Vida)
02) Pau No Meu Cú
03) Meus Problemas Com a Bebida
04) Matadora de Aluguel
05) Dedo-Duro, Puxa-Saco e Covarde
06) Kid Marreta
07) Uma Lágrima No Rosto
08) O Que Seria do Rock
09) Eu Era Mais Feliz Quando Era Triste
10) Sexy Hot
11) Você Foi Feita Pra Mim
12) Rua da Golada

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Jerry Lee Lewis – Great Balls Of Fire (1989)




Por Davi Pascale

Não, meus amigos. Não escrevi a data errada. Não pretendo tratar da música que é quase uma obrigação qualquer pessoa que se considere roqueiro reconhecer após poucos acordes. A ideia é falar sobre o filme criado em 1989, dirigido por Jim McBride, para retratar o início da carreira de Jerry Lee Lewis. Talvez uma das figuras mais intrigantes da história do rock.

Atualmente, está na moda os músicos se passarem por bonzinhos. Evitar falar qualquer coisa que possa ofender outro artista. Agir tudo como se fosse um script. Nascido em Lousiana, Jerry Lee era autentico, não tinha medo de nada. Muitos o consideram arrogante. Afinal, o cara se auto-intitula “the killer”. Mas certamente era visionário. Um dos primeiros músicos a demonstrar que era possível ser um performer atrás de um piano. Um dos primeiros músicos brancos a gravar uma música de negro e lança-la com single. (Atitude que na época era considerada ousada). Sem contar sua habilidade musical. Seu talento é incontestável.

A película, que conta com a interpretação memorável de Dennis Quaid, mostra o início de tudo. A sua contratação com a Sun Records. Seu encontro com Sam Phillips. A polêmica em torno de “Whole Lotta Shakin´ Goin´ On”. A explosão de “Great Balls of Fire”. A vez em que atacou fogo no piano no meio de uma apresentação. Seus dias de glória, onde muitos se dirigiam à ele como o novo rei do rock (título dado à Elvis Presley). E sua queda no auge.

O filme retrata bem a época. Foram reconstruídas as roupas, os costumes, os cabelos, as danças, as gírias. Tudo com o máximo de detalhes possível. Jerry Lee Lewis atingiu a fama rapidamente. Passou a ser perseguido por repórteres, por inúmeras garotas. Requisitado para shows e mais shows. Tudo ia muito bem até que foi descoberto uma atitude sua que chocou à todos na ocasião.

Cantor se casou com sua prima de 13 anos
Jerry Lee Lewis, astro do rock com até então 22 anos, havia se casado com Myra Gale Brown. Sua prima de apenas 13. Filha de seu baixista J.W. Brown. Interpretada por Winona Ryder, tratava-se da típica garota adolescente. Inocente, iludida com seus ídolos, controlada por seus pais, sonhava em morar em uma linda casa cor-de-rosa com portas azuis. Parece até mentira descobrir que casou-se com seu primo, escondida de seus pais. É o tipo de ação que não combinava com sua imagem.

Jerry, por sua vez, era um ótimo cantor, excelente pianista. Extremamente carismático dentro e fora dos palcos. Com uma auto-confiança fora do comum, era chegado em bebidas e mulheres. Já havia se casado duas vezes, antes de se casar com sua prima. E depois dela, casou-se mais 4. Seu outro primo, Jimmy Swaggart, era pastor e contestava o rapaz por se dedicar ao rock n´ roll, considero pela igreja como o ritmo do diabo. Roland é interpretado aqui pelo cultuado Alec Baldwin.

O longa é bem filmado, bem atuado e conta com um ótimo roteiro. Só peca em não demonstrar como o cantor retomou seu prestigio. Por focar nos anos 50, não demonstra a fase country do mesmo. Outro nome de peso que aparece por aqui é Jimmie Vaughan interpretando Roland Janes, guitarrista de Jerry. Para quem não está por dentro, Jimmie é irmão do lendário Stevie Ray Vaughan. Manja o LP Family Style que Stevie Ray lançou com o nome de Vaughan Brothers? Pois bem, é aquele garoto.

A trilha que misturava faixas da época com regravações fez enorme sucesso e colocou a garotada dos anos 80 em contato com a música de Jerry Lee Lewis. Conhecido no Brasil pelo nome de A Fera do Rock, o filme foi lançado em DVD em 2010 como parte da coleção Cult Classics e é encontrado no mercado por preços populares. Uma ótima pedida para quem quer conhecer um pouco mais sobre o rock dos anos 50 e até mesmo para aqueles que querem apenas se divertir...

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Unisonic – Light of Dawn (2014)





Por Davi Pascale

O supergroup Unisonic chega ao seu segundo álbum. Formado por Dennis Ward (Pink Cream 69), Kai Hansen (Gamma Ray), Mandy Meyer (Krokus), Kosta Zafiriou (Pink Cream 69) e o cultuadíssimo Michael Kiske (Helloween), o grupo aposta em um álbum de power metal e deve agradar aos fãs do gênero.

Ele bem que tentou, mas não conseguiu. Michael Kiske, responsável pelos vocais do clássico Keeper of the Seven Keys e influência direta para 10 entre 10 dos vocalistas do que é chamado de metal melódico (inclusive, o brasileiro Andre Mattos), tentou se afastar do heavy metal. Dizia que não queria mais ser visto como vocalista de metal. Gravou álbuns distantes do gênero, buscando, muitas vezes, uma sonoridade mais pop, inclusive. De nada adiantou sua fúria. Seus álbuns solos passaram batidos, sendo consumidos somente por aqueles que eram seus fãs de carteirinha. Somente quando retornou à cena com o projeto Unisonic é que voltou a chamar a atenção.

Um dos motivos de maior celebração entre seus seguidores é que o tal projeto juntava-o novamente ao seu ex-companheiro de Helloween, Kai Hansen. O guitarrista, ao contrário de Kiske, nunca negou o heavy metal e criou outra banda que também se tornou referência no segmento: o Gamma Ray. Por isso, muitos podem ficar desapontados ao notarem que o músico praticamente não participa do processo de composição do álbum, já que na ocasião estava ocupado com a criação do novo álbum do Gamma Ray. O principal compositor desse trabalho é o baixsta Dennis Ward.

Dennis Ward se destaca como principal compositor e Michael Kikse demonstra voz intacta

Ward também é responsável pela produção do álbum. Sem duvidas, uma escolha acertada. O rapaz é um produtor experiente. Está careca de saber como um álbum de heavy metal deve soar. Durante seus anos atrás de uma mesa de som, produziu bandas como House Of Lords, Primal Fear e até mesmo o grupo brasileiro Angra. O álbum traz uma sonoridade pesada, porém extremamente bem definida. Som praticamente perfeito.

Uma das principais criticas de Michael Kiske em relação ao metal era sua associação exacerbada à temas mais pesados como o satanismo. Também não agradava a idéia de não poder sair do senso comum. Dos fãs e imprensa especializada reclamarem quando se tenta algo diferente. Realmente o músico foi massacrado quando lançou o Chameleon ao lado do grupo que o tornou famoso e principalmente seu projeto Supared (já na sua fase solo), mas o novo álbum não apresenta modernidades, não. Uma alegria para seus fãs, mas um pouco contraditório em relação às suas falas. Light of Dawn é um trabalho típico de power metal, ao contrário do álbum de estreia que trazia uma maior influência do hard rock.

Faixas como "Your Time Has Come", "Find Shelter" e "For The Kingdom" poderiam terem sido gravadas por grupos como Helloween, Stratovarius e até mesmo Angra. Contam com aquela construção tipica de bateria veloz, guitarras harmoniosas e vocais pegajosos. Faixas como "Throne of The Dawn" e "Manhunter" já apostam em uma sonoridade mais cadenciada. O momento hard está presente na divertida "Not Gonna Take Anymore", enquanto as baladas aparecem em "Blood", "When The Deed Is Done" e na faixa de encerramento "You And I" (não, não é a do Scorpions). A prova de que Kiske não perdeu suas influencias pop, já que o refrão é nitidamente chupado da balada "Sailing" do cantor Rod Stewart. Os fãs mais afoitos podem correr atrás da versão europeia que conta com a excelente "Judgement Day" e traz um final muito mais digno. Kiske continua com sua voz intacta e várias canções são impactantes. Apesar da pisada de bola em "You And I", é um dos melhores álbuns que ouvi nos últimos anos dentro desse gênero.

Nota: 8,0 / 10,0
Status: Power metal inspirado

Faixas:
01) Venite 2.0
02) Your Time Has Come
03) Exceptional
04) For The Kingdom
05) Not Gonna Take Anymore
06) Night Of The Long Knives
07) Find Shelter
08) Blood
09) When The Deed Is Done
10) Throne Of The Dawn
11) Manhunter
12) You And I
13) Judgement Day (Bonus Versão Europeia)