terça-feira, 10 de junho de 2014

Pitty – Sete Vidas (2014)



Por Davi Pascale

A cantora soteropolitana Pitty está de volta. Depois de um hiato de 5 anos, o ultimo grande nome da cena brasileira retorna com seu projeto principal. As guitarras e baixo distorcidos voltam à marcar presença junto com seu vocal gritado. Em seu novo trabalho, a cantora toca em assuntos delicados como morte e sexo, sem perder seu estilo de composição. Realizado durante periodo delicado, o grupo de Priscilla Novaes Leone volta cheio de gás.

Dentro da cena mainstream brasileira, essa é a artista que considero como quem faz a diferença. É verdade que no underground temos ótimos grupos, mas o que fica marcado na memória das pessoas quase sempre são os trabalhos de grande expressão. Esse é um dos motivos que me deixa extremamente preocupado com o rumo que o rock n´ roll anda tomando. Não há quase nada para ser lembrado daqui alguns anos. De vez em quando, surgem algumas exceções. Até agora, para mim, ela foi a ultima exceção. Infelizmente, muitos ainda não se ligaram nisso. Muitos insistem em não levar seu trabalho a sério por conta de ter uma grande influencia entre o publico jovem. Ela pode ter bastante adolescente na platéia, mas seu trabalho não é adolescente. Não se trata da versão brasileira da Demi Lovato. Aqui, o buraco é e sempre foi mais embaixo.

Em Sete Vidas, Pitty traz algumas mudanças. A primeira é na formação. O baixista Joe, para quem ainda não sabe, está fora da banda. Sua saída foi tumultuada e envolveu processo judicial e tweets irônicos. Embora ninguém tenha falado por A+B a causa do problema, tudo leva a crer, pelo andar da carruagem, que a razão principal foi dinheiro. Uma surpresa e tanto. Na minha cabeça, quem não agüentaria a pressão seria o Duda. A minha lógica é que uma vez que o rapaz é ex-marido dela, talvez tivesse dificuldades em lidar com a nova realidade. Achava que em algum momento ele explodiria. No entanto, com a saída de Joe, o baterista se torna o único músico da formação original. Quem assume as quatro cordas é Guilherme Almeida. Para quem não se recorda, o gaucho participava dos shows do projeto Martin & Eduardo. Sendo assim, sua escolha era meio obvia. Já era meio parte da família.

Outra mudança, em relação à formação, é a maneira como ela é apresentada. Antigamente, a cantora dizia que Pitty era o nome da banda. Os músicos apareciam tanto nas fotos promocionais como nas imagens do encarte quanto nos créditos do disco. Aqui, embora os 4 tenham participado de todas as faixas, em baixo de cada nome de musica vêm a formação que a gravou, não importando se há ou não participação especial. Os músicos não aparecem no encarte também. Para mim, a mensagem é nítida. A banda não existe mais. Agora, é sua carreira-solo. Acredito que tenha ficado traumatizada com os rolos envolvendo o Joe Gomes. Bom, pelo menos, os caras continuam tendo espaço para colaborarem nas composições.

Banda volta à ativa depois de encarar batalha judicial com ex-integrante

Mais uma vez contando com a produção de Rafael Ramos e lançando pela Deckdisc (ambos, parceiros dos tempos de Admiravel Chip Novo), o projeto contou com uma ajudinha de fora. Literalmente. Embora a gravação tenha ocorrido no Brasil, o processo de mixagem e masterização ocorreu nos Estados Unidos. A mixagem ficou por conta do britânico Tim Palmer que já chegou a trabalhar com artistas do porte de U2, Ozzy Osbourne, Tears for Fears, além de ter trabalhado no cultuado Ten, álbum de estréia do Pearl Jam. A masterização ficou por conta de Ted Jensen. Em seu currículo, estão trabalhos de grandes nomes como Paul McCartney, Alice In Chains, Bon Jovi, Megadeth e Dream Theater.

Muitos têm tratado Sete Vidas como o retorno da Pitty ao rock. Daí eu pergunto: como se retorna a algo do qual você nunca saiu? Chiaroscuro pode ter menos distorções nas guitarras, mas ainda assim é um disco de rock. Aliás, é o álbum que tem maior proximidade com o novo trabalho. Se por um lado, faixas como “Olho Calmo” e “Boca Aberta” nos remetem um pouco à Anacrônico, de outro, faixas como “Deixa Ela Entrar”, “Pequena Morte” e “Um Leão” poderiam estar facilmente no play de 2009. As guitarras podem estar com mais volume, mas são os mesmos tipos de arranjos. As letras também seguem um pouco a lógica daquele material. Contando mais uma vez com temáticas mais obscuras e metaforas.

“Lado de Lá” é uma das mais tocantes. Em (Des)Concerto, a musa dos jovens roqueiros, entrou em uma polêmica com a faixa de trabalho “Pulsos”, onde ela foi acusada de incentivar o suicídio. O tema retorna na quinta faixa de seu novo trabalho. Dessa vez, tendo como inspiração a morte de seu ex-guitarrista Peu Sousa. A música retrata a dificuldade da artista para lidar com a situação. Um verso que deixa isso explicito é: “o imenso silencio que atravessou o domingo de sol/ e eu chovi sem parar”. Chovi, certamente se refere às lágrimas em seu rosto ao saber da noticia. O refrão indaga o porquê do ato. “Pra quê essa pressa de embarcar na jangada que leva pro lado de lá”.

“Olho Calmo” me soa como uma resposta à seu ex-baixista. Frases como “Nem esperava que essa hora ia chegar”, “o traquejo de esperar a hora certa de esbravejar” e “do cão que nem ladra mais, só morde” cabem bem à situação. Curiosamente, é a única faixa assinada pelos 4 integrantes da banda. Essa idéia de lidar e vencer dificuldades é temática recorrente no disco. Logo na faixa de abertura, “Pouco”, já escutamos depoimentos como “sigo tentando sair do fundo. Nado, não quero morrer”. Essa musica, aliás, traz de volta os vocais gritados de Pitty. Algo que ela já havia feito em faixas como “No Escuro” e “De Você”.

Morte de Peu Sousa inspirou "Lado de Lá"

Entretanto, há momentos menos tensos, mais relacionados à desejos, principalmente sexuais. Em “Um Leão” provoca a imaginação dos garotos com o verso “escute bem o que vou propor/ nós a sós no elevador / use bem meu despudor/ sou harém ao seu dispor”. O erotismo também está presente na já citada "Pequena Morte". Algumas vezes, com versos bem diretos, inclusive. "De repente a gente nessa dança muito doida/ Rolando, suando, nunca para de pulsar/ Lá se vão horas, ninguém conta mais o tempo/ O arrebatamento não demora a chegar". Para quem gosta de dizer que não quer ser mais uma gostosinha no pedaço, esse é um terreno perigoso. 

“Massa” é outra que foge do território comum. A cantora escreveu uma letra critica utilizando o termo massa como se fosse de uma receita. Uma curiosidade interessante é que na época de ditadura militar no Brasil, os jornalistas postavam receita de bolo para demonstrarem que estavam sendo censurados. Já vi algumas pessoas associando essa letra com temática política, mas acredito que aqui a história seja outra. Posso até estar errado, mas a minha teoria é de que esteja voltada aos ataques que sofre pelas redes sociais e fóruns, quase sempre criados em cima de achismos ou então em cima de meias-verdades e que mesmo assim, causam fúrias em diversos de seus admiradores. Seria de certa forma, uma censura da sua liberdade (uma vez que está sempre sendo vigiada) e também uma censura do ato de pensar (uma vez que várias pessoas passam a acreditar naquilo cegamente, depois que tais deduções começam a se repetir como se fossem mantras. Lembre-se, toda história tem dois lados). Letra bem inteligente. Em termos de arranjo, a que causará maior estranheza é a faixa “Serpente” que conta com uma forte influencia de musica africana. Influencia cada vez mais comum na musica baiana e cada vez mais incomum no rock n´roll. Atitude, no mínimo, corajosa.

Sete Vidas foge do senso comum da atual cena roqueira mainstream brasileira. É um trabalho inteligente, bem arranjado, bem produzido, bem gravado, bem cantado e bem tocado (aliás, vale lembrar que os músicos gravaram tocando ao vivo dentro do estúdio). Trabalho onde a artista resgata velhos elementos e acrescenta novos ingredientes. Só torço para que não demore mais 5 anos para lançar um novo disco.

Nota: 8,0/10,0
Status: Reflexivo

Faixas:
      01)   Pouco
      02)   Deixa Ela Entrar
      03)   Pequena Morte
      04)   Um Leão
      05)   Lado de Lá
      06)   Olho Calmo
      07)   Boca Aberta
      08)   A Massa
      09)   Sete Vidas
      10)   Serpente

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Aletrix – Herpes Aos Hipsters (2013)

Por Rafael Menegueti

Aletrix - Herpes aos Hipsters
Hoje em dia é difícil encontrar bandas legais e que não pareçam forçar a barra pra tentar ter atitude rock ‘n roll no Brasil. De toda essa onda de bandas que surgiram nos últimos anos, são poucas as que podemos apontar que fazer rock de atitude, sem pretensões comerciais que as façam parecer dispensáveis. Na minha opinião a grande resposta para uma banda soar com verdadeira atitude é a falta de qualquer pretensão que não seja fazer música para divertir e curtir, seja com trabalhos mais sérios, emocionais, ou irreverentes, caso da banda que falarei agora.

O Aletrix é dessas bandas, que é original sem nem querer ser. Irreverente, com um som que mistura apenas as melhores influências possíveis, e um tanto de provocação, essa é a atitude que realmente faz a diferença no rock atual. O projeto do músico Alê Lima (o Aletrix) lançou seu primeiro disco, “Herpes aos Hipsters” em dezembro de 2013. Rockabilly, punk, grunge e indie rock são os estilos que se misturam nas faixas desse disco, lançado de forma independente, como muitas boas bandas fazem nesse país.

A irreverência das letras é uma das marcas desse trabalho. Com um humor acido e provocativo, o músico brinca com situações cotidianas relacionadas à sociabilidade entre as pessoas. Ele alfineta aqueles tipos que são tão conhecidos por todos nós, da sub-celebridade inútil, em “Ex-BBB”, até aquele sujeito perfeito e arrogante que se acha superior (“Ele É Mais Qualificado). Mas a grande provocação do disco está na faixa titulo, onde o alvo são os hipsters, tipinhos cheios de querer inventar moda e se fazer de “cools”. E a letra (“faxina na Augusta / e o fim do Twitter”) não podia ser mais perfeita nessa alfinetada.

Alê Lima, também conhecido como Aletrix 
Musicalmente o disco também não decepciona. As canções são simples e sem enrolação. Algumas faixas, como “UFC/Anorexia” e “Eros X Tanatos”, tem pegada e peso. Outras como “Caixa Vazia”, “Ele É Mais Qualificado” e “Milk Shake” tem melodias mais leves e levadas mais pop. Outras faixas interessantes possuem estilos próximos de um blues (“Dr. Bichano”), e rock clássico (“Louie Louie Chuva Dourada” e “Debut do Aletrix”).

Dentre as bandas independentes que vem surgindo no Brasil recentemente, posso apontar o Aletrix como uma que merece atenção. O disco deles é bem produzido, possui canções divertidas e ao mesmo tempo recheadas de grandes referencias de diversos estilos. Uma boa pedida de banda nacional, que espero que siga fazendo trabalhos como esse por um bom tempo.

Nota: 9/10
Status: Irreverente

Faixas

1. UFC/Anorexia
2. Eros X Tanatos
3. Caixa Vazia
4. Herpes Aos Hipsters
5. Ele É Mais Qualificado
6. Dr. Bichano
7. Milk Shake
8. Ex-BBB
9. Garfinho de Ouro
10. Mestre e Pupilo
11. Louie Louie Chuva Dourada
12 Debut do Aletrix
13. DJ Nerd

domingo, 8 de junho de 2014

Ronnie James Dio – This Is Your Life (2014)





Por Davi Pascale
Ronald James Padanova partiu em Maio de 2010, vitima de câncer. Certamente uma das perdas mais sentidas pelos amantes da música pesada. Seu legado, contudo, é eterno. Ao lado de grupos como Black Sabbath, Rainbow e Dio, criou vários hinos do heavy metal que ainda serão lembrados por gerações e mais gerações. Chega agora ao mercado um novo CD tributo. Idealizado pela sua esposa Wendy Dio, o projeto terá todos os lucros revertidos para a instituição The Ronnie James Dio Stand Up And Shout Cancer Fund.

Esse não é o primeiro trabalho que é realizado em homenagem ao rapaz. O cantor teve a oportunidade de prestigiar o lançamento de Holy Dio, lançado em 1999, que contava com vários artistas contemporâneos celebrando sua obra. Teve ainda o duramente criticado álbum tributo de Jorn Lande. Embora o disco fosse muito bem feito e o cantor realmente tenha fortes influências (há quem chegue a dizer que ele é uma mistura de David Coverdale com Dio), muitos viram sua atitude como mercenária, uma vez que o projeto foi lançado menos de dois meses após a morte do cantor.

Talvez os leitores achem estranho eu ter colocado o nome do álbum como se fosse um trabalho do Dio, ao invés de um CD tributo, mas é exatamente assim que está estampado na capa. Ronnie inspirou não apenas milhares de ouvintes, mas milhares de músicos. Talvez essa seja a mensagem da imagem. Como se sua esposa estivesse dizendo ‘aqui está. O retrato da sua vida. O resultado de sua batalha’. Na arte, estão os desenhos de vários artistas que compareceram no projeto como se estivessem correndo em sua direção. Todos eles têm uma ligação com o artista. Seja na convivência, seja na influência.

O CD mistura versões que já haviam sido lançadas previamente com outras gravadas exclusivamente para o álbum. No cast, estão artistas do porte de Metallica, Motorhead, Anthrax, Scorpions e Rob Halford (vocalista do Judas Priest).

Projeto foi idealizado por Wendy Dio, esposa e empresária do cantor

Anthrax abre com uma versão matadora de “Neon Knights”. Pesada, bem tocada e bem próxima à original. Na sequência, temos Tenacious D interpretando uma versão razoável de “The Last In Line”. Muitos podem achar que é perseguição minha pelo fato de Jack Black (mais conhecido por sua atuação em Escola de Rock) estar nos microfones. Na verdade, não. Embora ele realmente esteja longe do Dio, achei o trabalho vocal dele bom. O que me frustrou na verdade foi a mixagem (achei o som de bateria dessa faixa bem pobre) e a inclusão de uma flauta no arranjo. Embora seja criativo, não gostei do resultado.

Adrenaline Mob vem na sequência com o clássico “The Mob Rules”. A versão é exatamente a mesma do álbum Covertá, na época ainda com Mike Portnoy na bateria. Corey Taylor, vocalista do Slipknot e do Stone Sour, segura bem “Rainbow In The Dark”, enquanto Halestorm entrega uma versão ok para “Straight Throught The Heart”. A vocalista é boa, os músicos são bons, mas mais uma vez achei que a equalização final ficou a desejar. O som dos pratos da bateria ficaram magrinhos demais, na minha opinião. De todo modo, gostei bastante do trabalho vocal Lzzy Hale. Pegarei alguma coisa dessa banda para ouvir. É o único artista desse projeto que não conhecia (a não ser de nome).

O disco volta a pegar fogo com a junção do Motorhead com Biff Byford (Saxon) em “Starstruck” e a balada “Temple of The King” na voz do Scorpions. Depois, foi a vez da ‘metal queen’ Doro Pesch com a sua versão mais do que manjada de “Egypt (The Chains Are On)”. Amo essa cantora. Uma das minhas maiores felicidades foi ter tido a oportunidade de conhecê-la pessoalmente e entrevistá-la, inclusive. No entanto, poderiam ter colocado uma versão alternativa, uma vez que já havia sido lançada em diversos lugares, inclusive no tributo Holy Dio. Tenho certeza que se pedissem à ela, entregaria alguma versão diferente com enorme prazer. Além de ser extremamente simpática, sempre foi uma grande fã do baixinho.

Assim como a ex-Warlock, o grupo de metalcore Killswitch Engage já havia lançado “Holy Diver” anteriormente. Pesada, com os vocais misturando limpo com gutural, pode assustar os fãs mais conservadores, mas ficou interessante. ‘The Voice of Rock’, Glenn Hughes, coloca toda sua alma em “Catch The Rainbow” e Oni Logan entrega um vocal inspirado em “I”. Muitos têm falado dele por conta do projeto Dio Disciples, mas esse cara me chama a atenção desde que cantava em um (excelente) grupo chamado Lynch Mob. Quem não conhece, por favor, corra atrás.

Metallica se sobressai com medley formado por faixas dos tempos do Rainbow

O metal god Rob Halford interpreta o clássico “Man On The Silver Mountain”, recordando os tempos do Rainbow. Ficou legal, mas essa seria a faixa ideal para cantar com seus famosos agudos. Poderia ter soltado mais a voz. O Metallica fecha as homenagens também relembrando as canções de quando Dio cantava ao lado de Ritchie Blackmore. Ao contrário dos demais artistas, não se concentraram em uma única canção. Optaram por um medley misturando “A Light In The Black”, “Tarot Woman”, “Stargazer” e “Kill The King”. Mortal!

O CD encerra com a música que dá nome ao projeto na voz de Ronnie James Dio. A balada já tinha sido lançada no (bom) Angry Machines. Contando apenas com voz, piano e a presença de cordas, o álbum se encerra de maneira melancólica, nos lembrando de quão bom era seu trabalho vocal e nos deixando a certeza de que não teremos outro cantor desse nível na cena. Homenagem justa e digna.

Nota: 8,5/10,0
Status: Empolgante

Faixas:
      01)   Neon Knights – Anthrax
      02)   The Last In Line – Tenacious D
      03)   The Mob Rules – Adrenaline Mob
      04)   Rainbow In The Dark – Corey Taylor, Jason Christopher, Christian Martucci, Roy Mayorga e Stachel
      05)   Straight Through The Heart – Halestorm
      06)   Starstruck – Motorhead, Biff Byford
      07)   The Temple Of The King – Scorpions
      08)   Egypt (The Chains Are On) – Doro
      09)   Holy Diver – Killswitch Engage
      10)   Catch The Rainbow – Glenn Hughes, Craig Goldy, Rudy Sarzo, Scott Warren, Simon Wright
      11)   I – Oni Logan, Jimmy Bain, Rowan Robertson, Brian Tichy
      12)   Man On The Silver Mountain – Rob Halford, Doug Aldrich, Vinny Appice, Jeff Pilson, Scott Warren
      13)   Ronnie Rising Medley – Metallica
      14)   This Is Your Life - Dio

sábado, 7 de junho de 2014

Música Comentada: Nirvana - Been A Son

Por Rafael Menegueti

Kurt Cobain sempre buscou usar sua música para espalhar mensagens que se chocassem contra aquilo que ele não concordava na sociedade. Em diversas oportunidades, Kurt tratou de se manifestar contra preconceitos, hipocrisias e outras coisas das quais ele era contra através de suas letras.

Kurt Cobain fez de Been A Son um protesto pelos direitos da mulher
Uma das maiores causas defendidas pelo líder do Nirvana foram os direitos das mulheres. Kurt era praticamente um feminista quando se tratava desse assunto, e isso ficou evidente em varias de suas músicas. Mas nenhuma delas é tão direta e forte quanto “Been A Son”, lançada originalmente em um EP de 1989, e mais tarde regravada em Incesticide. Nela Kurt explica, de forma irônica, que tudo seria mais fácil para as mulheres se elas fossem homens.

She should have stayed away from friends
She should have had more time to spend
She should have died when she was born
She should have worn the crown of thorns
Ela deveria ter ficado longe dos amigos
Ela deveria ter tido mais tempo livre
Ela deveria ter morrido quando nasceu
Ela deveria ter usado a coroa de espinhos

Kurt usa em todos os versos da musica a expressão “ela deveria”, dando ênfase à idéia de que esse seria o discurso de uma pessoa que está julgando a posição da mulher a todo o momento. os dois últimos versos são os mais fortes. No ultimo, Kurt imagina como seria se ela fosse posta na posição de Cristo. Imagine isso. O que aconteceria se Cristo tivesse sido uma mulher? Qual seria o impacto disso e como as mulheres seriam vistas pela religião e pela sociedade se fosse desse modo. Essa é a reflexão proposta por Kurt.

She should have been a son
Ela deveria ter nascido filho

E no refrão ele repete esse verso, sendo claro: nessa sociedade, as mulheres não são tão valorizadas quanto os homens. Direto, sem enrolação.

She should have stood out in a crowd
She should have made her mother proud
She should have fallen on her stance
She should have had another chance
Ela deveria ter se destacado na multidão
Ela deveria ter feito a mãe orgulhosa
Ela deveria ter caído de pé
Ela deveria ter tido outra chance


Na segunda estrofe, Kurt busca mostrar como a sociedade exige tudo de uma vez da mulher. Ela deve se destacar, ser motivo de orgulho. Ser simplesmente mulher não basta. E ele conclui voltando ao que ele já havia frisado: ela deveria ter tido outra chance, e ter sido um filho.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Paula Toller – Projeto Inusitado





Por Davi Pascale

A cantora Paula Toller apresentou na última quarta-feira, na Cidade das Artes (Rio de Janeiro), as faixas de seu próximo trabalho solo que recebe o nome de Transbordada. O disco que já está gravado, mas ainda não tem data para ser lançado, traz a cantora mais próxima da linguagem pop rock e deve agradar aos fãs.

O show, que foi transmitido ao vivo pelo Canal Bis, serviu como uma previa do novo trabalho. Em entrevista à repórter Dedé Teicher, minutos antes de subir ao palco, a cantora explicou o projeto. Segundo Paula, o projeto Inusitado é uma “ideia do Andre Midani para colocar os artistas fora da zona de conforto, estimulando a criação não só de músicas como de um espetáculo”. Roberto Frejat já tinha se aventurado por lá fazendo um concerto com apenas voz e violão. A musa do Kid Abelha resolveu fazer diferente. Trouxe a banda completa e dividiu o show em 2 atos. O primeiro com o novo álbum na integra e o segundo relembrando alguns sucessos do Kid e da sua carreira solo. Esse formato, contudo, foi apenas para essa apresentação.

Em seus dois primeiros trabalhos solo, a loirinha fugia da sonoridade do grupo. Em seu debut de 1998, trazia um álbum com influencias diversas que passava pelo baião de Dominguinhos, o samba de Noel Rosa e o rock do Guns n´ Roses. No entanto, foram suas duas composições próprias que caíram nas graças do público: “Derretendo Satélites” e “Oito Anos”. Em Só Nós, de 2007,  flertou o rock com a MPB em um trabalho que realizou com artistas de diferentes partes do mundo passando por Jesse Harris (conhecido por seu trabalho com a Norah Jones), Rufus Wainwright e terminando no brasileiro Nenung. Essa aproximação com uma sonoridade mais próxima do seu trabalho com o trio carioca e a reaproximação do músico e compositor Liminha (que já havia trabalhado com o conjunto no início da carreira) fez com que começasse a circular pela internet boatos de que o Kid Abelha havia encerrado as atividades de vez. Os músicos até agora nada declararam e no final do ano passado anunciaram esses trabalhos como uma nova pausa, uma espécie de férias. Algo que já haviam feito anteriormente. Só o tempo mesmo para dizer...

Novo trabalho resgata os velhos parceiros Liminha e Beni Borja...


A primeira canção foi “Ohayo”. A letra fala sobre alguém que está reencontrando a felicidade nas coisas simples. A expressão japonesa significa bom dia. É como se alguém estivesse acordando, despertando. Não de sua cama, mas para a realidade. Com um arranjo animado, a música serve como um bom aquecimento. A faixa-título “Transbordada” é dona de um refrão pegajoso (no bom sentido da expressão) e tem de tudo para tornar-se o grande hit do disco. “Calma Aí” entra na sequencia depois de ser anunciada pela artista como o recado dela para o momento que o Brasil está passando. Na entrevista pouco antes do espetáculo, deu a entender que ela acredita que o povo está muito afobado, brigando muito e refletindo pouco. Tem um fundo de verdade. A canção foi escolhida como faixa de trabalho, talvez por conta da mensagem da letra. Honestamente? Não a considero uma canção ruim, mas também não considero uma boa faixa de trabalho. Não acredito que seja a melhor faixa para apresentar o disco às rádios...

A dançante “Já Chegou a Hora” traz a participação do rapper Flavio Renegado. Embora considere bacana a tentativa de se aproximar com a nova geração de artistas (benéfico para os dois lados. Para o novo artista que ganha em exposição e para o veterano que recicla seu som com uma linguagem mais moderna), não gostei da participação do rapaz. Acho que a música funcionaria melhor sem ele. Me soou meio embolado. Pelo menos nessa versão ao vivo. Vamos ver no estúdio se a parceria funciona (ou não). A bonita balada “O Sol Desaparece” vem na sequencia, narrando sobre o sofrimento de perder alguém que se ama.

Antes de apresentar “Ele Oh Ele” a cantora explica a origem da nova faixa. “Sempre quis fazer uma música homenageando um muso, mas sempre tive dificuldades de encontrar um nome que fosse sonoro”. Mais uma vez com um arranjo pra cima, a faixa deve agradar seus fieis seguidores. “Seu nome é Blah” é talvez a faixa mais rock do projeto com guitarra falando alto, vocal com efeito distorcido e backing vocals que nos remetem aos quatro rapazes de Liverpool. A letra foi inspirada nos ‘haters’, aquelas pessoas que ficam fazendo ataques na internet. Helio Flanders do Vanguart é o segundo convidado da noite e divide os vocais em “Será Que Vou Me Arrepender?”. Já conheço seu trabalho desde que sua banda lançou seu álbum de estreia encartado na extinta OutraCoisa. Embora não me considere um fã do rapaz, a parceria funcionou bem.

... mas também traz novos nomes como Flavio Renegado e Helio Flanders (Vanguart)

“À Deriva Pela Vida” é uma pareceria entre Paula Toller e Beni Borja. Para quem não se recorda, ele foi o primeiro baterista do conjunto e chegou a gravar o compacto de Pintura Intima. É o único lançamento do Kid Abelha onde eles aparecem na capa como um quinteto. Mais uma que tem chance de se tornar um hit, embora ainda considere a faixa-título mais forte nesse quesito. A primeira parte se encerra com “Timidos Romanticos”, mais uma faixa bem dançante remetendo um pouco à algumas faixas do Kid na fase Surf.

Como já citado no início do texto, a cantora não foi embora sem animar os presentes com alguns velhos hits. Foram executadas 5 do Kid Abelha (“Nada Sei”, “Como Eu Quero”, “Fixação”, “Nada Por Mim” e “No Seu Lugar”), 2 de sua carreira-solo (“Oito Anos” e “Meu Amor Se Mudou Pra Lua”), além de uma releitura de “Ando Meio Desligado” dos Mutantes.

Com um certo nervosismo (provavelmente, parte pela estreia do novo material e parte pela transmissão simultânea), Paula Toller agradou seus fiéis seguidores com uma apresentação bem elaborada e bem ensaiada. Aos 51 anos, a carioca continua encantando com sua voz delicada e seu charme. Seu trabalho vocal não foi perfeito, mas foi bom. Houve um ou outro deslize, mas nada que seja digno de fortes críticas. Depois de mais três décadas de estrada, a artista demonstrou que tem um repertorio de respeito, mas que não quer viver do passado. Esperando pelo lançamento do novo material para ver como ficou o resultado final. Liminha, para quem não se recorda, chegou a produzir diversos álbuns emblemáticos do rock nacional como “Cabeça Dinossauro” (Titãs), “Selvagem” (Paralamas do Sucesso), e “Nós Vamos Invadir Sua Praia” (Ultraje a Rigor). Isso para ficar somente em 3. Daria para citar uns 30. É... Parece que além de ser dona de um estilo particular de cantar e de ser boa compositora, Paulinha também sabe escolher bem seus parceiros musicais. O novo trabalho parece ser bacana...